“A memória morre com as pessoas, os livros é que a salvam da morte”

marcolino candeias foto Poeta Marcolino Candeias homenageado em Lisboa

(LISBOA, ESPECIAL PARA O DIÁRIO DOS AÇORES) - O poeta Marcolino Candeias (1952– 2016) foi recordado num ‘In Memoriam’ na Casa dos Açores em Lisboa na última sexta-feira, 10 de Fevereiro.
A sessão abriu com a projecção de um vídeo com uma entrevista do homenageado, seguida de uma apresentação memorialista em power-point por Katherine Baker, uma açor-americana residente em Pittsburgh, Pensilvânia, tradutora de Marcolino, bem como de outros autores açorianos, e que a expensas suas se deslocou propositadamente a Lisboa para homenagear o seu admirado poeta e amigo.
Seguidamente falou Onésimo Teotónio Almeida que, com Maria Luiza Martins Costa, organizaram o evento.
 Onésimo falou brevemente sobre o poeta, explicando que preferia dar voz a um coro de vozes de companheiros de geração a quem solicitara que se fizessem presentes enviando mensagens.
 Para tornar mais dinâmica a sequência, os organizadores optaram por alternar a leitura de textos com uma declamação de poemas escolhidos pela própria Maria Luiza Costa.
Habitual leitora de poesia na Casa dos Açores, a diseuse deixou a assembleia suspensa na sua bonita voz, cheia de alma e a transbordar de amizade e admiração pelo poeta, mas elegantemente controlada.
Os textos enviados para o efeito tinham as assinaturas de Ivo Machado (Porto), Urbano Bettencourt (Ponta Delgada), Eduardo Bettencourt Pinto (Vancouver, Canadá), Victor Rui Dores (Horta), Diniz Borges (Califórnia), Álamo Oliveira (Terceira), Lélia Nunes (Florianópolis, Brasil) e Zelimir Brala (Zagreb, Croácia), este último antigo embaixador do seu país em Lisboa.
Seguiram-se depoimentos de Artur Coulart (Évora) e Olegário Paz (Lisboa), presentes na sessão.
Convidada a assistência a participar, intervierem ainda Esaú Dinis e Januário Pacheco, terceirenses radicados em Lisboa.
A sessão terminou com a intervenção do filho Rodrigo, seguido de Deka Purim, mulher de Marcolino Candeias, e da filha Maité que encerrou o desfile de homenagens com uma bela canção.
Miguel Loureiro, presidente da Casa dos Açores, falou a encerrar, tendo-se seguido o habitual chá no primeiro andar daquele belo e acolhedor edifício, grande centro de divulgação da cultura açoriana em Lisboa.
Natural das Cinco Ribeiras, Terceira, Marcolino Candeias licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade de Coimbra, onde leccionou algum tempo, tendo de seguida leccionado na Universidade dos Açores.
 Passou depois uma temporada no Canadá, tendo sido Leitor de Português na Universidade de Montréal.
De regresso aos Açores, foi Director da Casa da Cultura da Ilha Terceira, Director Regional da Cultura, Presidente do Gabinete da Zona Classificada de Angra do Heroísmo e finalmente Director da Biblioteca Pública de Angra.
É opinião unânime entre as mais importantes vozes das letras dos Açores de hoje que os seus dois livros de poesia – Por Ter Escrito Amor (1971) e Na Distância Deste Tempo (2002), bem como alguns poemas dispersos, bastaram para Marcolino Candeias assinalar uma significativa e indelével presença nas letras açorianas, como o demonstra o facto de a sua poesia figurar em várias antologias nacionais e estrangeiras.
Possuidor de um espírito criativo multifacetado, Marcolino Candeias guardou da sua infância e juventude um gosto pela linguagem e pesia populares da sua freguesia e ilha natais, e soube transpô-las para a escrita transfigurando-as com uma habilidade e sensibilidade de fino quilate.
Nessas mesmas fontes bebeu um sentido de humor que se manifestou na criação da impagável figura do Joe Canoa, que ficará para sempre no imaginário açoriano através de algumas “estórias” como a de “Láz’re”, uma narrativa bíblica pela voz de um popular terceirense.
A criativa estética de Marcolino manifestou-se ainda no desenho de capas de livros e numa peça artística, hoje já clássica entre os seus contemporâneos das letras e artes, o célebre retrato “Felix et amici cena” decalcado no quadro “A última ceia”, de Leonardo da Vinci, usando figuras literárias da sua geração açoriana.
A sessão na Casa dos Açores de Lisboa constituiu a consagração do poeta na memória cultural insular, mas foi lembrado que, para que ela perdure, há que reeeditar toda a sua produção poética, reunindo-a naturalmente num único volume.
A memória morre com as pessoas; os livros é que a salvam da morte e permitem que ela seja transmitida às gerações seguintes.