“Os Açores darão ao rabinho de contentes com duas antenas, um emissor e coisas parecidas”

BASE das LAJES A imprensa nacional tem dedicado, nos últimos tempos, várias páginas ao problema da Base das Lajes e como a administração de Trump irá lidar com este caso, destacando-se declarações de especialistas em estratégia e do Ministro dos Negócios Estrangeiros, que se mostram cautelosos mas optimistas quanto a um possível recuo dos EUA em relação à importância das Lajes. O “Diário dos Açores” ouviu Armando Mendes, jornalista da ilha Terceira e  profundo conhecedor desta matéria, com um mestrado sobre as Lajes.

 

A imprensa nacional parece muito convicta de que a nova administração Trump poderá dar uma reviravolta na questão da Base das Lajes. Comungas desta expectativa?
A imprensa nacional tem dado provas, ao longo da História, de pouco perceber da questão das Lajes, tendo, particularmente, em conta os contextos que envolvem a base.
O interesse norte-americano nos Açores nada tem a ver com humores deste ou daquele, com lobistas ou com organizações étnicas.
O interesse é definido na grande estratégica, cujos contornos ainda não conhecemos. É verdade que estamos habituados a percepcionar os interesses norte-americanos através, entre outros instrumentos, dos discursos presidenciais.
Mas essa percepção não é possível através dos discursos de Trump, que são erráticos e cheios de ruído.
Uma aliança EUA-Inglaterra, com a Inglaterra fora da União Europeia, revaloriza o espaço geoestratégico dos Açores, uma vez que o controlo desta zona do Atlântico é crucial para a segurança da ligação entre as duas potências.
Se juntarmos a esses dados o interesse chinês nesta zona, que também pode estar associado ao controlo de rotas comerciais, então tanto os EUA como a Inglaterra passarão a ter interesses vitais nos Açores.
Em pouco tempo os contornos destas questões começarão a definir-se, segundo me parece.
Até lá, resta esperar.


 O que se poderá esperar da próxima reunião da bilateral em Maio?
Nada de especial... Portugal vai tentar usar o trunfo dos Açores para resolver o seu problema na área da ciência, através do Air Center, que parece estar em construção - e os Açores darão ao rabinho de contentes com duas antenas, um emissor e coisas parecidas no seu território.
Parece-me que o Air Center vai estar no centro do debate nesta bilateral.
Está na altura de os Açores começarem a perceber qual a relação custo/benefício do que, nesse âmbito, está previsto para as ilhas. E quais os benefícios para os outros.
Se os estudos de custos e de benefícios forem concretizados e de forma séria e científica, provavelmente concluiremos que esse tal de Air Center poderá não nos interessar.
Duvido, porém, que os Açores sejam capazes de realizar esses trabalhos, por falta evidente de massa crítica. E também duvido que queiram enveredar por esses caminhos.
Começo a pensar que a lição da redução nas Lajes não foi percebida.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros também deposita muita expectativa na influência de Devin Nunes. Como noutras ocasiões, consideras que Vasco Cordeiro devia ir, mais uma vez, a Washington, aquilatar das novas tendências e influências?
Sempre defendi que os Açores deveriam fazer-se representar na Comissão Bilateral ao mais alto nível.
Aliás, a presença de Vasco Cordeiro nas bilaterais que discutiram a redução nas Lajes foi benéfica.
Pelas informações que tenho e que reputo de fidedignas, sem Vasco Cordeiro teria havido despedimento nas Lajes e não apenas rescisões por mútuo acordo.
Aliás, parece-me que se a Região tem apostado mais cedo numa representação de alto nível na Bilateral teria sido possível conter o que acabou por acontecer nas Lajes.
Quer isto dizer que a presença do Presidente do Governo Regional na Comissão Bilateral é sempre benéfica, nem que seja para inibir os apetites lisboetas.
A importância é esta - ao nível das decisões.
Quanto a perceber tendências, isso pode ser feito por um alto funcionário.
Mas só ao líder regional é devido o respeito necessário para dizer não. E isso pode fazer a diferença.
Quanto às expectativas do Ministro dos Negócios Estrangeiros em relação a Devin Nunes - é assunto que pouco me interessa.

Com Trump, as veleidades da China relativamente às Lajes ficam definitivamente cortadas?
O mundo em construção pode muito bem contemplar uma divisão de responsabilidades e tarefas entre várias potências.
Provavelmente, será assim, porque os EUA parecem pouco interessados em assumir responsabilidades de polícia do mundo, sobretudo agora que têm autonomia energética em casa.
Ou seja, tudo depende de como o mundo do futuro próximo se vai estruturar.
Não acredito, porém, que os EUA - independentemente de o mundo do futuro ser multipolar ou não - queiram concorrência no Atlântico.
Se assim for, afirmarão a sua presença nas Lajes, como penso que irá acontecer.
No entanto, tudo depende do que for negociado com Lisboa.
Pode ser negociado o afastamento da China dos Açores, mantendo-se as Lajes sem crescimento que possa importar à economia dos Açores.
Nesse caso, as contrapartidas serão secretas e para Lisboa.
Este é o caminho mais provável.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.