“Os deputados revelaram uma cobardia política”

cavaco silva Cavaco Silva e o caso do Estatuto dos Açores

O antigo Presidente da República, Cavaco Silva, considera que o caso do Estatuto dos Açores foi a sua maior luta política nos dez anos de mandato.
Numa entrevista concedida ao jornal Público do passado sábado, Cavaco diz que lutou contra todos, mas que tinha razão e acusa os deputados de cobardia, por causa das eleições nos Açores.
Os jornalistas São José Almeida e David Dinis perguntam, a dada altura, qual foi a sua maior vitória como PR, e cavaco responde:
“Um PR não tem poder executivo, não tem poder legislativo, não tem ministérios, não define políticas económicas, sociais, ambientais, científicas e as suas vitórias ou resultados são de natureza muito diferente daquelas que alcança um Governo. As minhas influências como PR - o que é normal num PR - faz-se pela via do escrutínio da legislação, onde o PR pode convencer o Governo a alterar a legislação ou pode vetá-la ou mandá-la para o Tribunal Constitucional. Penso que um dos meus maiores contributos para a defesa do superior interesse nacional foi na alteração do Estatuto Político-Administrativo dos Açores: 25 normas foram declaradas inconstitucionais. Foi uma luta que travei com a Assembleia da República durante um ano. E se eu olhasse o Portugal num tempo curto, não travaria aquela luta. Mas era um caso em que era preciso olhar o Portugal no tempo longo. Os deputados, revelando uma cobardia política que nunca mais encontrei nem conhecia, votaram três vezes o Estatuto Político-Administrativo dos Açores, sabendo que eu tinha razão (que era acompanhado nas minhas posições por muitos constitucionalistas), [e fizeram-no] de uma forma cobarde porque iam ocorrer eleições”.
“Eleições nos Açores”, precisam os jornalistas, e Cavaco prossegue:
“Havia pressões muito grandes, receavam que fossem vistos como anti-autonómicos. E eu não desisti. E era uma luta que o povo português não compreendia porque eu a travava. E é aí que se vê a fibra de um PR. Sabendo que o povo não acompanha, não percebe o que está a acontecer, ele está a fazer aquilo que eu considero um dos maiores contributos para a defesa do superior interesse nacional”.