Sector primário regista maus resultados e perde empregos

comparação economia 1 A pesca e a produção de leite foram os sectores que registaram piores resultados, ao longo de 2016, relativamente ao ano anterior, com repercussões em várias áreas da economia, tendo em conta que são sectores estruturantes da Região.
No caso do leite, a diminuição tem a ver com as limitações impostas pelas fábricas, de modo a não se ultrapassarem as quantidades absorvidas pelos mercados.
É visível o esforço que tem sido feito no sentido de se enveredar por produtos de maior valor acrescentado, mas é um caminho longo e lento tendo em conta que são áreas altamente concorrenciais no país e no estrangeiro, e será sempre uma parte pouco significativa da produção que, mesmo com a diminuição, ainda está nos 603 milhões de litros de leite e representa à volta de 30 % da produção nacional.
No caso das pescas, as quebras têm a ver com vários factores, que vão desde as condições do tempo, as temperaturas das águas no caso do atum – problema que vem já de há vários anos  -  e as quotas impostas por Bruxelas.
Neste caso, a diminuição do valor do pescado não acompanhou a redução das capturas, enquanto o volume da pesca descarregada desceu quase 30%, as receitas reduziram 9%.
Mesmo assim, não deixa de ser uma significativa perca de rendimento.
Na agricultura há uma viragem já visível no sentido da produção de carne, daí que o abate de bovinos tenha crescido cerca de 20% e há também alguma diversificação de culturas, mas o conjunto é insuficiente, dizem os responsáveis, para compensar a produção resultante dos enormes investimentos feitos na agro-pecuária ao longo de várias décadas.
O sector da construção, começa a dar sinais de alguma recuperação, a ter em conta a venda de cimento, mas o número de licenças de construção continua baixa, continuando a ser um sector com maior influência social do que económica.
Nos valores positivos há a destacar a venda de carros novos, um sector alavancado pela dinâmica do turismo e o significativo aumento das dormidas, com um crescimento de 21%.
São indicadores positivos e mostram que, independentemente do peso que venham a ter na dinamização da riqueza regional, tiveram já o benefício de contribuir para a criação de empresas e circulação de dinheiro. Se cruzarmos estes dados com outros factores, como, por exemplo, o peso do turismo e respectivos serviços, no Valor Acrescentado Bruto da Região, parece poder deduzir-se que o turismo ainda não é o novo ciclo dos Açores, dado que os rendimentos locais são reduzidos e os vencimentos do sector muito baixos. Pesa ainda uma sazonalidade significativa.
 
Desemprego desce, Inflação sobe
 
O comportamento da economia pode também ser apreciado por outros indicadores como a taxa de inflação, o desemprego e o total da população empregada.
A inflação tem vindo a crescer desde o início de 2015 de uma forma mais acentuada na Região do que no conjunto do país.  Esta diferença, entre outros factores, deverá estar relacionada com a falta de concorrência na Região e pequena dimensão de alguns mercados.
Entende-se a inflação como um conceito que designa o aumento continuado e generalizado dos preços dos bens e serviços e portanto o seu crescimento significa que há uma diminuição do poder de compra, sobretudo se o rendimento salarial não acompanhar essa alteração, como é o caso.
Deste modo, o aumento do índice de preços no consumidor tem repercussões negativas, sobretudo para as classes sociais de menores recursos.
Mas, em termos económicos a subida da taxa da inflação significa que existe mais dinheiro em circulação e um maior poder de compra, seja dos turistas ou de sectores sociais com mais recursos e isso leva a que a taxa de inflação tenha tendência a registar uma maior aceleração.
Em contrapartida mais compras e mais dinheiro em circulação leva ao crescimento das empresas e à criação de empregos.
Segundo os economistas, no curto prazo, um aumento da inflação traduz-se numa menor taxa de desemprego, enquanto uma menor taxa de inflação leva a uma maior taxa de desemprego.
Na situação actual, nos Açores, esta teoria é visível, dado que enquanto a inflação sobe, a taxa de desemprego tem vindo a diminuir, conforme mostram os gráficos.
Já relativamente à população empregada, os dados não são tão positivos.
 Os Açores já chegaram a ter cerca de 113 mil empregos, que foram diminuindo nos anos da crise e voltaram a crescer com a melhoria da economia.
Todavia, era de esperar que face à dinâmica que se tem gerado à volta do turismo, era de esperar que os tempos recentes tivessem gerado mais empregos.
Tem contribuído também para a diminuição do total da população empregada, a agricultura, que continua a perder postos de trabalho e a indústria e a construção, que apesar de alguns sinais positivos, ainda não são significativos. O último boletim trimestral do Serviço Regional de Estatística dos Açores refere que a evolução do emprego no sector primário, no 4º trimestre de 2016, registou uma diminuição de 8,1%, relativamente a igual período do ano anterior.


Rafael Cota, para o “Diário dos Açores”