Em jeito de despedida

Onde vai toda esta gente pernoitar durante a sua estadia na Ilha Montanha? - pergunto-me ao ver tantos visitantes nacionais e estrangeiros que todos os dias chegam ao aeroporto do Pico.
Chegam, e pouco tempo depois estão a viajar nos carros das rent a car por essas estradas fora.
Este ano foram mais uma vez os alemães, franceses e italianos que aqui vieram para passar 3 ou 4 dias. E se mais quartos e viaturas para alugar houvesse, tudo se teria vendido – comentaram alguns empresários do setor.     Mas a época alta ainda não terminou e, contrariamente ao que aconteceu noutros anos, há muitas reservas até finais de outubro, nas instalações de Alojamento local.
É aí que se instala grande parte dos visitantes e não querem outros aposentos, pois como os demais do turismo rural, não existem, praticamente, diferenças nas tipologias.
Os proprietários dessas habitações já compreenderam que os antigos edifícios existentes nas zonas mais periféricas, mas com excelentes vistas e acessos, têm de preservar e documentar o viver tradicional desta gente que habitou em zonas rurais, rodeada de animais e de pequenas propriedades, de onde retiravam grande parte do sustento.
Ainda esta manhã, ao admirar uma casa construída em pedra, no lugar da Terra Alta, freguesia de Santo Amaro, com vista soberba para a ilha de São Jorge e parte da Terceira, observei um estrangeiro relatando por telemóvel ao seu interlocutor a vista maravilhosa que desfrutava da varanda da casa.
E são muitos os edifícios de alojamento local existente nesta ilha.
Segundo dados da Direção Regional de Turismo, gentilmente cedidos por Gilberto Vieira das “Casas Açorianas”, há 189 alojamentos locais (AL) na Ilha do Pico: 121 moradias, com 236 quartos e 525 camas, 50 apartamentos, com 192 camas e 11 estabelecimentos de hóspedes, com 136 camas.
No total, sem falar na hotelaria tradicional, esta ilha dispõe de 884 camas (AL): 405 no Concelho de São Roque auto-designado de “capital do turismo rural”, 278 nas Lajes do Pico e de 201 na Madalena. Isto sem referir as unidades hoteleiras tradicionais.
Para fazer-se uma ideia do quanto aumentou este tipo de equipamentos nos Açores, refira-se que das cerca de 900 unidades existentes, 413 situam-se em São Miguel, ( 967 quartos e 2.075 camas)(1) logo seguido da Ilha do Pico (884) e do Faial (584).
Isto é prova do enorme investimento privado efetuado, nos últimos anos, num setor em que muitos acreditam, e contribui para diversificar o tecido económico desta Ilha Maior (2).
Em redor do Pico, passam despercebidas as casas destinadas ao alojamento local. Nota-se, porém que, quem constrói junto ao mar, ou no interior das localidades, preserva o mais possível todos os equipamentos que antigamente davam sustentação ao viver no campo: a chaminé, o forno exterior para cozer a fornada de pão de milho ou o bolo e secar o milho no outono; o tanque e respetivo eirado onde se recolhia a água das chuvas; os balcões: o da porta da sala, onde se secavam as sementes e a mulher conversava com as vizinhas, fazendo renda no pouco tempo de descanso, e o da porta da cozinha, serventia da casa, por onde se passava para a loja ou para o interior do edifício.
Se bem que a remodelação dessas habitações tenha conservado, o mais possível, os equipamentos antigos, foi introduzido mobiliário moderno e novos equipamentos que proporcionam conforto e o repouso indispensável a quem procura estas paragens insulares.
Há quem faça sentir a falta de unidades hoteleiras no Pico para grupos com mais de 30 pessoas. Esses investimentos, porem, só são possíveis para empresas ou empresários abonados e de média dimensão, mas têm de ser programados e realizados.
Os habitantes desta ilha já demonstraram a sua capacidade empreendedora noutras circunstâncias (na atividade baleeira e na safra do atum), arriscando suas vidas e suas poupanças. Agora fazem-no na nova indústria do turismo ou na economia do lazer.
Importa ainda acrescentar que a procura por esta ilha se deve, não só à sua beleza e riqueza naturais, mas também ao esforço que vem sendo feito na abertura de novos trilhos e beneficiação dos existentes.
No interior e ao longo de toda a costa, há imensas extensões basálticas lajeadas, resultantes das erupções vulcânicas, que encantam qualquer amante da natureza e atraem quem por aí anda, despreocupadamente, a pé.
Esta é uma crónica de adeus à minha ilha, e é também o testemunho do meu apreço por uma população que, apesar de cada vez mais envelhecida, acredita que nesta ilha vale a pena viver.
Oxalá, quem de direito reconheça a sua valentia e a dote das condições exigíveis para uma vida digna e saudável.


*Jornalista c.p. 536
http://escritemdia.blogspot.com
 
1)    Dados da DRT de 30 agosto de 2016
2)    Expressão do poeta Almeida Firmino