Viagens no tempo: Viver a música

Desde criança, que não sendo proeza rara, trazia a voz afinada, o ouvido apanhando tudo o que se cantarolava na escala – vivia feliz.
Até que um dia acordei com a voz baça, articulando a lera das canções coma a voz embargada e a conversação muito pouco perceptível.
Julgando tarar-se de um mal passageiro fruto de um mero mal passageiro, passei à frente nas dúvidas e continuei nos ensaios do orfeão, mas estava bem tocado pela mazela.
Meti-me ma terapia de fala com resultados nada animadores.
As tantas, quem sabe, consultei um especialista, já desaparecido, que me detetou um tumor maligno nas cordas vocais “e cantar?”, perguntei-lhe com o semblante de quem adivinha o futuro a pronunciar de quem vai arrumar as botas…
Resposta pronta, “você já cantou muito!”, e acrescentou, “dê o lugar a outro, as suas cordas vocais estão cancerosas, vai ter de ser operado, quanto antes”.
Saí do gabinete, onde se reunira a junta médica, e de lágrima ao canto do olho e não era para menos.
Umas sememas depois, procurei-o, mas de olhos marejados, a assistente informou-me, “o nosso querido doutor Almeida Lima deixou-nos para sempre”.
E assim o eminente médico teve o seu primeiro encontro com Deus.

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Num ímpar adágio mavioso
Ao 2.º andamento do concerto para clarinete, de Mozart

Num ímpar adágio mavioso,
À soada de magnificentes
Acordes magistrais, avulta o gozo
Dos melómanos, na sala, presentes.

Surge o solista num modo fogoso
Desvanece, absorve os assistentes,
Brilha o som calmo, afetuoso
Do clarinete, em lances excelentes.

Entrego-me… Dou por mim a pensar
Quão belo é ter da música o talento
De compor num frenesi de pasmar…

E ter a dita de se escutar
Um músico sensível, ternurento,
Disposto a todos enfeitiçar…

Bento Sampaio
Novembro 2013