3 - Prolegómonos a toda a dúvida possível

Sem inocência nenhuma Jaspers escreveu “Filosofar é estar a caminho.” Por sua vez o poeta António Machado y Ruiz versejou “Caminhante, não há caminho. Faz-se o caminho ao andar”. Entre estas duas frases o problema é entender o que será “filosofar” e o outro descobrir o que é caminho já que, por certo, o bom leitor parou a ler isto. Claro que estamos diante de duas perspetivas a filosófica e a poética.Provavelmente não se põe dilema algum senão quando refletirmos no facto de que as ciências nos informam que a Terra se move e estamos a andar no espaço mesmo parados.
A longo prazo não sabemos muito bem para onde queremos ir nem qual é o melhor caminho. Não falta gente a andar por aí e bem podemos ir atrás deles pois a vida é breve e acabamos todos no mesmo sítio, sem grandes diferenças.
Chesterton, teólogo, filósofo e humorista, o que não é uma síntese muito vulgar,conversava na rua enquanto olhava meditativo para uma pessoa que lhe afirmava saber muito bem para onde ia e para onde queria ir. Sem lhe responder, diante de tanta confiança, Chesterton reparou no autocarro que passava ao lado e tinha por destino um manicómio londrino. Por uma lógica mais profunda do que a que mostrava, pensou que, com tamanha certeza, aquela pessoa podia muito bem ter esse destino.
Na atualidade, o novo profissional “Coach” tem a função de estimular, apoiar e despertar em seu cliente motivações que continuam, à moda anterior, a ser vendidas em livrinhos de auto-ajuda. Tanto a leitura do livro não causa surpresa, mas a ação do Coach costuma ser confidencial.
Quando se inclui no caminho o problema do tempo tudo fica duvidoso. Com ou se ajuda, alguns dos nossos sonhos ficam pelo caminho, se os realizamos queremos logo atingir outros e não há animal mais inquieto do que o humano. Somos nós que mudamos de objetivos e ficamos carregados de dúvidas mesmo sem sair do lugar.
Quando somos muito jovens somos muito ignorantes, mas isso não nos aflige. Há sempre quem nos queira ensinar tantas coisas.
Depois podemos saber muito, mas começamos a desconfiar que sabemos pouco e cada vez menos. Por fim, sentimos o peso de enorme ignorância, descoberta à custa do saber, e pode ser que, com sorte e humildade aprendamos a viver. Mas é sempre muito duvidoso.
   Se tudo tem que começar pelo princípio, nós ignoramos os nossos primórdios que nos trouxeram até aqui. Com toda a certeza que temos um eu, ninguém sabe dizer o dia em que surgiu.
Algumas pessoas afirmam que na vida real há que ter princípios. Fala-se mesmo muito mal de uma pessoa sem princípios mesmo que não se saiba muito bem de que se trata.
Alguns mais afoitos remetem as pessoas que têm princípios para o plano da moral e da ética, nunca da loucura, bipolaridade ou trabalho. A culpa dessa dedução deve-se especialmente ao filósofo Kant que tinha uma moral de princípios e não de fins. Se bem que isto seja o cerne da questão, os ditos filósofos não explicam isto sem complicar e pôr uma pessoa confusa. Mas nem assim temos certezas pois precisamos de saber que princípios são esses que dirigem a ação.
O risco dos moralismos que todos nós sabemos muito bem distribuir, está em dar bons conselhos e não bons exemplos. Uma moral de princípios é bem diferente de uma moral de finalidades e esta parece ser bem lógica se não tivermos em conta os meios.
Como é que se chega lá?
O metódico Kant segue, por certo com muito custo, apenas princípios universais que possam ser aplicados por todos e em qualquer circunstância. As ações morais que impliquem meios reprováveis não têm caminhos universais, logo devem ser excluídas.
Vilfredo Pareto, sem contemplações morais, mostrou que há muitos princípios ditos universais que não chegam aos fins previstos devido aos caminhos que se tomoue, sem controlar tudo, por causa dos meios não se chega aos fins. Pareto não gostava de exemplificar, mas mostrou como os louváveis princípios em que Lenine se baseava, devido aos meios que não pode controlar, os seus objetivos foram desastrosos pensando nos princípios pelos quais se guiava.
A conduta moral de Kant significa seguir o “puro dever” sem olhar às circunstâncias o quenunca interessará a advogados e sofistas, que se regem por labirínticos Códigos.
Para escândalos de muitos, Kant colocar o dever do amor acima do simples amor. A racionalidade do amor é um paradoxo, mas ainda maior contradição é seguir as nossas tendências egoístas. Se assim escolhemos deixamos de ser pessoas e passamos à categoria de animais e de bestas. O exemplo comum das “cunhas e “entradas pela porta do cavalo” retira a universalidade à moral.
Como não ver que dar a um amigo aquilo que ele nos pede pode ser por amor, mas infringindo o dever? Na sua universalidade o dever liberta-nos da bestialidade e da animalidade porque nos coloca na posição de juízes no campo dos legistas, e de súbditos ou subjetivamente no campo do cumprimento da lei. Num paradoxo muito bem desmontado é na nossa tão querida e falada liberdade que está o obediente dever.
A poesia bonita de Fernando Pessoa “ai que prazer não cumprir um dever” não é boa ideia para Kant pois o“querido eu” nos leva a cometer disparates e incongruências nos caminhos da vida.A cláusula de cumprimos sem excepção o puro devertorna Kant “o quebra tudo”. A moralidade da nossa consciência dá-nos personalidade. Os outros animais não têm Código Penal porque não praticam intencionalmente o Mal.
É assim que o caminho da racionalidade paradoxalmente baseia-se na irracionalidade da natureza e a dúvida leva aos maus caminhos do meio ou da exceção.
Por mais voltas que a Terra desse à volta do Sol, hoje, por trás dos filósofos e dos legisladores mais notáveis,é ainda a sombra de Kant com a fragilidade da universalidade de que in dubito pro reo.