Cinco Prolegómenos a toda a dúvida possível

Por que é que ainda se compram ovos ou chávenas às dúzias e não às dezenas? Existem dois paradigmas, ou mais, lado a lado, sem descrédito para nenhum. Se há o sistema decimal de origem animal de pata ou mão faber, ainda se fala em dúzias?
Toda a gente diz setembro, outubro, novembro e dezembro, sem que lhe chamem a atenção para o erro, pois os meses falam em sete até doze e ninguém reclama, nem pelos duodécimos. Nunca se chocam porque reina uma liberalidade imperturbável.
O problema maior é que há quem aceite que só é ciência dentro da chamada na época “normal” com um modelo aceite. O resto é senso comum, ou que se justifica pela mente como um balde para onde vai tudo o que sabemos.
A nossa mente exige que se diga científico, se possível experimental e aplicada, sem reparar que também a ciência anda aterrada de ser apanhada de chinelos pelos seus corredores. A irreverência com que James Watson em “A Dupla Hélice”: Era “demasiado belo para não ser verdade” tem tanto de entusiasmo como descaramento de jovem novato nessas andanças. Um jovem com um Nobel espantoso, conseguido por meios que ele, desavergonhada e irreverentemente confessa os meios de chegar aos resultados tira-nos toda a inocência e pureza do olhar a nobre ciência e seus impolutos sequazes.
Historiar os erros é menos banal e mais complexo do que contar a história dos êxitos da ciência que temos. Foi porém pelos erros que se chegou a melhores certezas e é aí que a consciência humana é mais verdadeira e se agarra melhor as realidades.
  Um dos pormenores relevantes antes de começar a filosofar é o problema da compreensão. Na Era da comunicação o que se diz não interessa tanto como o dizer e não há entrevistador que não interrompa um discurso filosófico.
- Não podia explicar isso “por miúdos” para o público em geral?
  Ninguém se atreveria a pedir a um astrofísico que simplificasse a explicação da ida de uma sonda a Marte. Já a irritação cresce às perguntas simples do filósofo que questiona sobre as dúvidas da sua racionalidade e do sentido que esta tem sobre a vida, ou o que pensa da sua subjetividade.
O mito que fica de pedra e cal. Não vem da velha Grécia, mas de um certo cientismo positivista que penetrou nas mentes de modo inveterado. A separação das ciências “duras” das ciências ditas humanísticas, deu perfeito crédito e legitimidade para um lado. Curiosamente não é o lado humano.
 Ter uma especialização acerca de uma especialidade acaba com as românticas visões holísticas dos adeptos das ditas “ciências” alternativas.
  Entramos sincreticamente em mitos urbanos quando se fala de terapias holísticas, em auras e chacras que transportamos e espalhamos em nosso redor para gáudio das fenomenologias, de que já se perderam as origens, com os estudos sobre a epistemologia da hidroterapia, da fitoterapia, da argiloterapia e recursos a quiropraxias com imaginação mais ou menos delirante e seguidores mais ou menos desesperados ou obstinados.
Com os receios de não ter modernismo suficiente na velha filosofia passarmos da epistemologia para um conceito novo e que até soa estranhamente Filosofia da mente. Platão escreveu no pórtico da sua Academia: “Aqui só entram geómetras”.
Pelo contrário, em “A Filosofia da Mente” nem geómetras entram.
Tudo isto porque se tornou muito dispendioso “dar notas” e não menos complicado “dar” aulas. Fechou-se a liberdade de duvidar em obras cada vez mais eruditas e carregadas de adjectivos de espanto por todos os citados.
  Dar parece antónimo de valioso ou útil. O delírio do estudo fenomenológico da inteligência emocional ainda não se apossou no que se trata de verificar nos animais não humanos mas, encaminhou neurologistas, vagos frenologistas, criminologias e alegres sofisticados intelectuais para tratar o subjetivo de um modo novo: a forma “dura”. A consciência dura já é científica hoje, mesmo que nem pense em desarticular o cérebro da mente. Quando o aleatório toma a via dos estudos quânticos não admira que se possa dizer “ser e não ser” ao mesmo tempo em graus de certezas. Os desafios
Esquecida que está a “glândula pineal” do maltratado Descartes, mal aceite por todos os lados, culpada do zumbido dos ouvidos e quiçá da nossa ligação ao Cosmos eis um elemento de peso para entrar na filosofia dita “dura” da mente. Ao assumir que a filosofia tem preconceitos contra as tecnologias, a cibernética e a inteligência artificial, entre outros estamos a colocar um corte entre saberes duros e os que não são.
  Mas todos nós usamo-los em casos de importância vital. Tirar a filosofia do homem comum é colocar erva numa redoma e reservá-la a uns poucos donos da Verdade.
Os ditos “bem pensantes” carregados de vocábulos caríssimos, de especializações sem fim, afastam-se da vida e a vida humana só vale se for pensada e não distribuída com critérios disciplinados e metódicos.
A filosofia nunca pode ser um saber adquirido, fechado e arquivos e menos ainda ser uma disciplina! É uma revolta constante do já sabido, é a desorganização do metódico, é a subjetividade única de cada um a tentar compreender-se a si e aos outros.
Cada pessoa tem um único caminho, não pode ir no lugar de outros. Em todas essas duras ou incertas ciências há um terrível imperativo. - Segue-me… Pensa como eu, eu tenho a estrada só me falta o peregrino.
Se a poesia se torna uma flor dos adolescentes, a árvore do todo o saber tem raízes bem fundas na terra e só por isso são verdes os ramos. Os riscos de filosofias da Mente estão em colocar comparativamente estudos de autores e assuntos muito diferentes. Aceitar Darwin como psicólogo ao lado de Locke ou compará-lo com estudos de Diderot, são hilariantes comparações para “criar” novos estudos das sensações. Rigorosamente ninguém as sente. É um dado biológico que só é consciente nas perceções. As raízes dos grandes pensadores sem “consciência dura”estão na Vida e esta, claudicante e frágil, habita a mente de cada homem adormecido ou desperto. Toda a gente sabe responder. A questão é haver sempre uma pergunta nova.