Viagens no tempo: Afável outono

Com o verão já ido, em boa hora, sem nos deixar belisco, entrámos no calmoso outono¸ estação em que a Natureza, cansada dos folguedos oportunos, entra docemente num período regenerador, permitindo que os dias adormeçam num vagar de rara beleza e magia – é o meigo outono a iniciar o seu ciclo natural.
Das únicas coisas a alterar a pacatez dos derradeiros dias de agitação de veraneio, viam-se crianças correndo para a escola, umas decididas a aprender mais e melhor, outras indecisas em prosseguir estudos, porque eram entusiasmadas com a vida no campo, alegres com a azáfama das colheitas – vindimas, castanhas e demais frutas da época.   
E assim corria o belo outono, disposto a permitir a recolha de tudo quanto a bondade da terra dispunha, como prenda do labor dos seus agricultores empenhados.
Contudo, a falta de orientação estatal, de um plano suprapartidário, conjugado com a opção e entusiasmo dos agricultores, decerto que resultaria, trazendo benefícios para todos.
Uma região é mais próspera, não só pela fertilidade dos seus terrenos, aliada à orientação dada pelos seus proprietários ou rendeiros.
Vem isto a propósito do quase desaparecimento da maçã das Furnas e de outros produtos de fama mundial, com especial destaque para a laranja e o vinho verdelho. 
É pena que os serviços oficiais parecem não empenhar-se com a produção da maçã das Furnas, levando as grandes superfícies comerciais à importação de frutos de outras latitudes, sem aquele paladar único, que é o nosso, ignorando a atenção à acreditação do genuíno gosto da maçã das Furnas e de outros como o célebre verdelho das ilhas e a famosa laranja nos afortunados séculos XVIII e XIX. 
Não compete aos agricultores argumentar com soluções improvisadas, mas aos técnicos que se debruçam sobre  essa problemática.
Dizia-me um curioso agricultor das Furnas, “permitiram esses senhores da cidade que as vacas chegassem até aos nossos quintais… o senhor não acredita…”
Perante tal afirmação, que me pareceu lógica, olhei aquele experimentado homem e refleti – é bem provável.

P. S. – A paz eterna do tio paterno de minha mulher, com 100 anos de vida laboriosa e da filha, minha companheira no tratamento radioterapêutico, na cidade do Porto, em 2014.

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Reflexão

A vida de um agricultor é penosa. Porém, a exposição à rudeza das intempéries invernais não afrouxa o dinamismo daqueles que ali encontram o seu ganha-pão. Mais vale um intervalo de descanso, do que entrar em lamúrias, que apenas conduzem a frustrações.
B.S.