Seis - Prolemómonos a toda a dúvida possível

“E vai um!”
Com certeza que todos já conhecem a expressão “e vai um” mas não perderam mais tempo a pensar nisso.
Na linguagem de todas as pessoas de determinado tempo escolar , dizer 56 + 89 igual a 145 pela simples razão que se pensa (e vai um) no enigma da lógica que nos ensinaram. O busílis não é saber que é “mais um”, mas sim porquê ninguém perguntar e “vai um” que sentido tem. Ainda mais estranho seria perguntar numa soma de três números, 875+768+987, porque é que agora “vão três” para 2630?
Na aceitação da fatalidade do consenso, António Gedeãoescreveu:
São gigantes? São gigantes.
São castelos? São castelos.
Magisterdixit ainda governa muito das nossas mentes. Conformismo  para bem da normalidade e sossego geral.
Cala e obedece que “ele” sabe o que nos ensina, nos transmite, o que viu e fez reportagem ou narrativa”. Medo, respeito, propaganda e publicidade, ingenuidade e fé confiante estão no mesmo saco de gatos?
Perante o enigma da necessidade do “e vai um” ou desse uso enigmático mas comum do mais… está o velho hábito de pensar pela experiência alheia, sem mais refletir.
O grego Zenão de Eleia inventou, em linguagem filosófica, a teoria da relatividade quando fez o herói Aquiles, dos pés ligeiros, não conseguir ultrapassar a tartaruga. Reforçou a teoria com a experiência que todos temos de perceber que uma seta que voa para o alvo está sempre parada em cada instante e isso não implica que a seta deixe de atingir o alvo.
A evidência é bem clara e o paradoxo também. Convivemos com ambos de forma amigável durante uns tempos.
Passadas umas gerações, que em termos genealógicos são menos do que se julga, surgiu, “na coluna vazia”(1933), Tobias Dantzig, o jovem zero. In “Number: The Language of Science”, que Einstein considerou a obra mais interessante sobre a evolução da Matemática.
Entusiasmadíssimo, Einstein vestiu uma bata branca, arregaçou as mangas, depois colocou a tese filosófica do sofista Zenão em termos matemáticos e, daí a pouco, a ciência abria as portas à ideologia da relatividade cultural e o relativismo passou a ser do senso comum.
Continuamos com áreas científicas que tentam tudo para serem separáveis e aplicáveis dos modos mais diversos, mas unidos pelo senso comum o melhor dos bens que temos para partir para saberes que progridem de acordo com a atmosfera em que circulam as ideias de filósofos e cientistas de diferentes áreas que lutam entre si de modo privado e recebem prémios e louvores em público.
É assim que gostamos de estar no senso comum para verificar a sua imensa riqueza e profundidade em vez correr para os apressados cortes entre a ciência e o saber em geral. Afinal a democracia grega deu a democracia das massas e dizem que quanto mais pessoas vão a votos maior é a igualdade e a certeza de que estamos “relativamente” em regimes políticos e sociais culturais livres.
A nossa ideologia relativista que abarca todo o pensamento faz já parte da nossa herança cultural e onde o nome de Einstein aparece destacado, mas afastado das realidades que as suas ideias trouxeram até alterar o próprio senso comum.
Agora reina o “tudo é relativo” e o vai mais um conta relativamente.
O problema não está na Grécia onde, em bom rigor, bem poucos tinham direito de voto e esse período foi extremamente curto. O problema está na maioria do senso comum o “balde do pensamento comum” da tese das revoluções paradigmáticas de Kuhn, cerradamente contestada, por filósofos como Lakatos, Popper, Feyerabend e outros). Se não foi seguido pelo que se pensa da ciência “normal” todavia édonde brota os votos: do balde do senso comum que nunca desaparece.   
Se toda a gente de boa mente vota com tanta certeza de que sabe o que faz como a que tem quando diz “e vai um” a palavra liberdade soa a cântico poético.  Continuaremos tranquilamente a votar pois, na sabedoria idealista absoluta de Hegel, todos os povos têm os governos que subjetivamente merecem pelo Espírito desse Povo e se objetivam, isto é, se efetivam, no governo que se merece. Fica em causa discutir antes, com Rousseau, a “vontade geral”. Nenhum ser humano pode ir além do seu tempo por ser um contra senso e entre o bom senso e o senso comum este ganha sempre na Cidade. A Razão comanda a História e esta cada povo.
Se assim não fosse, amanhã o sol não “nascia” na linguagem meteorológico  e as pessoas iam a correr para todas as lojas porque amanhã é fiado.
Na dúvida, o senso comum,embora se altere, ganha na maior parte dos nossos casos mais práticos.