Coapresentação do livro (I): Pipi e Popó. Apenas para Quem Educa!

É com muita alegria que aqui estou, na Escola Básica Integrada de Capelas, para coapresentar o livro Pipi e Popó. Apenas para Quem Educa!, da autoria do Professor Nelson Soares, a quem muito agradeço.
O Dr. Nelson Soares é licenciado em Educação Básica e Mestre em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1º Ciclo do Ensino Básico. Por inerência, decorrente da profissionalização e da apresentação, pública, de um Relatório de Estágio, está qualificado para a Docência como Educador de Infância e Professor do 1º Ciclo do Ensino Básico, duas valências com identidade própria mas também com pontes de continuidade e de ligação. Aliás, na Educação Pré-Escolar já se antecipam, com a devida ponderação pedagógica e didática, aspetos que serão retomados e recuperados no 1º Ciclo, para além de a Educação Pré-Escolar configurar, em pleno, o sentido de uma educação integral, íntegra e integradora que o próprio processo de escolarização vai esbatendo e, até, desconfigurando e que o livro, de um modo ou de outro, não deixa de nos sugerir, mesmo que de modo implícito. E esse fenómeno de (des)identificação dos níveis de ensino e educação tende a acentuar-se ao longo das várias etapas do processo escolar e do sistema educativo e de ensino. Daí, como forma, também, de compensação, sempre com alguma deformação -  se não for feito com Cultura – a insistência retórica e prática (mais retórica do que experiencial) na e da interdisciplinaridade. Disciplinaridade, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade e transversalidade dos Saberes, que, apara além da diversidade, não dispensam a unidade do Saber e do Conhecimento. Mas só um Educador ou um Professor Culto é capaz de fazer isto. Não se trata de uma soma, trata-se de um labor que exige muito dos sujeitos do conhecimento (professores e alunos) e dos objetos, conteúdos, assuntos, temas e problemas. Não basta saber é preciso saber organizar os saberes, e transmiti-los com o sabor que eles próprios têm na sua seiva. Nunca será demais insistir no valor da experiência como conhecimento. O Dr. Nelson Soares dá provas - também com o seu livro - de saber lidar com cultura nos processos educativos. Não são muitos que o fazem, ou querem fazer, ou sabem fazer. É preciso uma vontade muito própria e um sentido de discernimento que se impõe ter, ser e promover.
Na Educação de Infância – e não só – é preciso saber potenciar os porquês e os para quês, tão bem expressos, como sinais, de interrogação e exclamação, no livro que aqui nos convoca: Pipi e Popó – Apenas para Quem Educa! Mas a Infância é um tempo primeiro, é um tempo original e originante, é um tempo de unidade, é um tempo de construir um Mundo, mundos de significação e de sentidos, através da imaginação, da inteligência, da sensibilidade, do raciocínio, da interrogação, das perguntas, da questionação, um termo e atitude que sempre colheu especial atenção de Vergílio Ferreira, um Escritor da minha predileção. É nesse tempo primeiro que o Ser e o Aparecer surgem em intimidade fenomenológica, na sua razão de ser, no seu sentido, no seu fundamento e, como tal, é aprendido mas, acima de tudo, e antes, ainda, apreendido. Apreender é mais do que aprender, por isso muitos professores podem ficar no exterior, incapazes de atingir a profundidade e alcance do interrogar de uma criança, que é criança antes de ser aluno, se está a crescer como pessoa boa e boa pessoa. E haverá humildade para isso? É essa humildade que faz o filósofo, o cientista, o escritor. A criança não é nem filósofo, nem cientista, nem escritor, embora possa esboçar e balbuciar questões e saberes que exigem um Educador e Professor muito atentos para a novidade, as novidades, de quem está a crescer, a ser e aprender. E por trás dessa novidade pode estar a Palavra que abre o segredo que possa levar à expressão de maravilhamento de que fala Piaget: “Ah, já percebi”. Esta expressão é apenas o momento terminal de um processo - quase subterrâneo - de maturação e compreensão, muitas vezes lenta, com avanços e recuos. Quando (se) faz luz, o caminho prossegue. E tantas são as profissões que já na Educação Pré-Escolar as crianças abordam como possíveis projetos de ser, que até podem variar num intervalo de tão pouco tempo. Também por isso, exigem abordagens didáticas com muita sapiência. É o chamado cantinho das profissões, que o livro transportou, todavia, para os quartos de Pipi e Popó, onde Joana e Filipe cresciam na sua intimidade, física e interior. Onde cresciam, sem medos, em plenitude e segurança. E que mais não tinham do que ser percebidos pela Educadora Amélia que, afinal, demonstra que bem precisa de voltar para os bancos da Escola, da Universidade, da Universidade da Vida, para aprender tanto e tanto, em dinâmicas de problematização, entre outras, em Filosofia da Educação e Deontologia Educacional. O Educador e o Professor têm o Dever de saber que os deveres, isto é, as obrigações do que tem de ensinar, não anulam, pelo contrário, promovem a criatividade de ser, de crescer e de aprender, isto é, criar um ambiente axiológico que permita aprendizagens convergentes e divergentes. O mundo não é preto e branco, o mundo é a várias cores, independentemente do género, porque o que nos une é sermos pessoas, diferentes, mas pessoas, unidas no Género Humano. Ora, as questões de género começam já a ser muito pouco face a muitas outras situações que, mais do que socialização, têm muito de humanização. Na nossa Cultura e em Democracia alguém se admiraria – no Cantinho das Profissões - que uma criança, uma menina, escolhesse uma farda de soldado e dissesse que quando fosse grande gostaria de seguir a vida da tropa? E, por acaso, a Educadora Amélia – referida na história do livro - perguntaria,  questionaria, sobre as razões por que aquela menina desejaria e ideava ser um soldado/da da Paz, um capacete azul, para ir em missões de salvamento, de socorro, de ajuda humanitária? Afinal, talvez fosse o desejo de resgatar a Humanidade que está pelas ruas da amargura. O Ser de cada pessoa está muito para além das normas e das leis da sociedade. O Ser de cada pessoa só se pode subordinar às leis que o Criador nela inscreveu. E quem tem o direito de desventrar esse mistério? Paradoxalmente, não é tempo de socialização, é tempo de humanizar. Já o escrevi, e cada mais me revejo nesta afirmação: nem individualismo nem coletivismo. A Pessoa é que É. A Pessoa é que deve ser, como indivíduo, na sua dimensão pessoal e social. A nossa intimidade é o lugar sagrado da nossa singularidade. O Deus trino ensina-nos a profundidade de coexistir em comunidade num tempo de tanta exclusão.
Com o subtítulo do seu livro, o Dr. Nelson Soares abriu imensos horizonte: Pipi e Popó. Apenas para Quem Educa! Este “apenas” é um convite de abertura, mas de grande exigência, para todos. Exige um trabalho, imenso, de problematização e questionamento, condição da e em Educação em sentido profundo e pleno, para o Género Humano. 

*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação

Nota: O livro Pipi e Popó. Apenas para Quem Educa!, da autoria do Professor Nelson Soares, foi apresentado no dia 28 de junho, deste ano de 2016, entre as 18h e as 21 horas, na Escola Básica Integrada de Capelas, no Concelho de Ponta Delgada, em S. Miguel, numa sessão presidida pelo Vice-Presidente do Conselho Executivo, Dr. António Carvalho, Professor do 1.ºCiclo do Ensino Básico.