Certas abstenções…

É certo que existem muitos eleitores inscritos que emigraram, faleceram ou mudaram definitivamente de residência, mas que ainda não foram abatidos nos cadernos de recenseamento e como tal contam falsamente como abstenções eleitorais sem de facto o serem. Mas isso não diminui o peso elevadíssimo da abstenção real nos Açores, a qual se tem vindo a acentuar de ato eleitoral em ato eleitoral, demonstrando que esse dever cívico é cada vez menos assumido pelos eleitores destas ilhas por razões de ordem diversa e que têm sido objeto de inúmeras análises mais ou menos explicativas, mais ou menos lúcidas ou razoáveis que me dispenso agora de comentar.
Direi apenas que a abstenção não tem sempre o mesmo peso nem as mesmas consequências. Acarretando em quaisquer circunstâncias algum prejuízo para a Democracia, prefiro debruçar-me por agora sobre o maior ou menor prejuízo que a abstenção acarreta, consoante ela atinja potenciais eleitores de uma ou de outra força política em particular.
Enquanto nas forças políticas que nos últimos atos eleitorais elegeram maior número de deputados, de entre os 57 novamente submetidos a sufrágio no próximo domingo, a abstenção de potenciais eleitores praticamente não afeta o número dos seus eleitos, já nas forças políticas que elegeram menor número de deputados (ditas pequenas) a abstenção dos potenciais eleitores pode até ser responsável direta por essa força política deixar de estar representada no Parlamento (como aconteceu com a CDU em 2004 em que, por 3 décimas a menos na votação alcançada, perdeu os dois deputados que tinha no mandato anterior).
Mas, como bem se sabe, os deputados perdidos em 2004 por aquela força política tinham estado reconhecidamente entre os melhores e mais ativos deputados do parlamento açoriano. Aliás, em geral os deputados eleitos pelas forças políticas com menor representação parlamentar produzem muito mais trabalho e de melhor qualidade que a média dos deputados eleitos pelas forças mais representadas, e daí que a sua não eleição ocasionada pela abstenção dos potenciais eleitores da força politica a que pertencem signifique, por um lado, uma grande ajuda à constituição de maiorias absolutas e, por outro, uma quebra duplicada não só no pluralismo da representatividade do parlamento como também na qualidade do trabalho parlamentar e, por arrasto, na qualidade de vida da sociedade.
Além disso, quando se concorda com medidas concretas não subscritas pelo atual poder como por exemplo o estabelecimento de um plano regional de combate à precaridade no trabalho; a redução das tarifas da eletricidade; a redução da taxa mais elevada do IVA; o estabelecimento de mecanismos de regulação do mercado para a defesa da produção leiteira; a instituição do contrato individual de trabalho na pesca; a gratuitidade dos manuais escolares e a extinção das propinas; a revisão do modelo de reembolsos das passagens aéreas para residentes, ou a implementação de políticas de saúde baseadas essencialmente na prevenção e na medicina de proximidade, então a abstenção destes eleitores poderá significar que pura e simplesmente qualquer dos assuntos referidos (do seu declarado interesse) poderá ficar durante 4 anos sem quem os apresente ou defenda no Parlamento dos Açores…
Assim se conclui que as abstenções (em particular certas abstenções…) podem ter consequências muito sérias para o rumo e o sucesso do nosso futuro coletivo, incluindo o futuro de quem se abstém. Daqui faço, portanto, um forte apelo para que, em consciência e em seu próprio benefício, haja mais eleitores açorianos, e não menos, a comparecer às urnas no próximo domingo.