Informação pouco séria

Exemplo evidente de uma informação pouco séria foi sem dúvida o afã das principais televisões e jornais nacionais para acirrar a novela de politiquice rasteira que se desenrolou à volta da mentira ou não mentira do ministro Centeno com que os dois partidos da direita, cada um buscando maior protagonismo que o outro nessa ação, procuraram desacreditar o governo do PS. Preferindo explorar a questiúncula até à exaustão ao invés de valorizar as questões prioritárias da consolidação e da credibilidade financeira do banco público português, alavanca importante do nosso desenvolvimento económico, esta informação e este jornalismo, prescindindo dos seus deveres deontológicos de isenção e independência, tomaram partido, ajudaram os abutres que anseiam por se apoderar de uma CGD privatizada e, mais grave ainda, prejudicando a Caixa, prejudicaram (prejudicam) objetivamente o país…
Mas outros exemplos recentes nos merecem também reparo.
Estando para mim assente que o rumo nacional não deve, não tem, nem precisa de se submeter aos diktat’s das agências de rating ou das organizações internacionais, parece-me apesar de tudo ser de relevar que em 14 de janeiro a Moody’s, em 3 de fevereiro a Fitch, no dia 6 a OCDE e depois no dia 13 a Comissão Europeia, longe de agravarem as espetativas para Portugal, mantiveram em geral um prognóstico estável e de confiança no país (no caso da OCDE admitindo mesmo “progressos impressionantes” em 2016, e no caso de Bruxelas melhorando os indicativos para 2017), reconhecendo o aumento das exportações e do emprego, da baixa do défice das contas públicas, e reconhecendo agora expressamente que os perigos principais não advêm, como era seu hábito salientar, do “aumento do salário mínimo” ou da “rigidez do mercado de trabalho” mas sim da situação da banca. No entanto, até à posterior confirmação de alguns destes dados pelo INE no dia 14, a abrir a maioria dos telejornais e na generalidade da imprensa, em todas as sucessivas datas das diferentes avaliações atrás citadas, estas referências passaram quase de lado e lá estavam antes de tudo os avisos e ameaças de incumprimentos múltiplos, a elevada dívida pública (que até aqui era silenciada pelo défice), o perigo da baixa de impostos, dos aumentos salariais e da diminuição dos horários de trabalho, etc. etc. num prognóstico ultra pessimista para Portugal só contornável com a adoção de novas medidas de austeridade. Com este comportamento pouco sério, em lugar de cumprir o seu papel a informação procurou assim, propositadamente, semear injustificadas desconfianças, insegurança e pessimismo entre os portugueses...
Ocorrem-me mais dois exemplos, desta vez a nível internacional.
Segundo as parangonas da RTP (em 5 de fevereiro): “Donald Trump disse que respeita Vladimir Putin, mas admite que o presidente russo é um assassino”. Ora quem admitiu, de forma no mínimo irresponsável, que Putin era assassino, foi o jornalista da Fox News que entrevistava Trump. Para além da truncagem abusiva nas suas parangonas, tivemos aqui a RTP a contribuir abertamente para deitar gasolina no fogo das tensões internacionais…
O Diário de Notícias (a 7 de fevereiro) em título pretensamente factual anunciava: “Regime de Assad tortura e enforca em massa”. Quanto a factos que suportassem a notícia, baseada num relatório da Amnistia Internacional (negado pelo governo sírio), percebeu-se afinal que eram testemunhos anónimos e desenhos de uma prisão, legitimando incertezas sobre a sua veracidade. Mas mesmo assim o Diário de Notícias não teve quaisquer dúvidas, e com tal ligeireza jornalística, juntamente com outros media, bem pouco contribuiram para o desejável sucesso das conversações de paz que entretanto decorriam no Cazaquistão entre governo e forças da oposição síria...