A casta superior

Através da imprensa soube-se há dias que 8 pessoas acumulam atualmente em suas mãos mais riqueza que a distribuída por 3,6 mil milhões de outros habitantes do planeta. À declaração universal dos direitos humanos deveria ser acrescentado um artigo que condenasse expressamente uma tal possibilidade de acumulação, não só por ser quase nula a probabilidade de alguém se poder apossar legitimamente de uma tão grande maquia (em divisas e/ou propriedade), mas também por se tratar invariavelmente de um atentado à dignidade de milhões de seres humanos que, por via dessa acumulação, se viram entretanto atirados sem apelo para as malhas da pobreza, da fome e da doença. Tal como muito bem perguntava Almeida Garrett há mais de 150 anos: “Quantos pobres serão necessários para criar um rico?”
Mas que tipo de gente é esta, mais aquela que, logo abaixo na “hierarquia”, a vai servindo para proporcionar-lhe, partilhando-o, o acesso mais ou menos legal, mas sempre imoral e ilegítimo, às suas imensas riquezas?
Nuns casos são anónimos, noutros são conhecidos mas sempre convenientemente acompanhados dos prudentes meios de segurança e de ocultação dos seus valores pessoais e patrimoniais. Boa parte são banqueiros ou gente ligada por propriedade e/ou administração a grandes grupos económico/financeiros. Consideram-se pertencentes a uma casta superior não sujeita às regras comuns, às obrigações de cidadania ou ao cumprimento das leis vigentes. Daí que em muitos casos, direta ou indiretamente, com maior ou menor envolvimento, seja fácil aparecerem associados a atividades à margem da lei, senão mesmo abertamente criminosas. Basta-nos referir Rodrigo Rato, condenado recentemente por apropriação indevida de património bancário, Dominique Strauss-Kahn, com processos enquanto ministro da economia e depois como promotor de festas libertinas raiando o proxenetismo, e Christine Lagarde, condenada por permitir um enorme desvio de fundos públicos enquanto ministra da economia, todos eles Diretores-Gerais do FMI (permanecendo a última no cargo, mesmo após a condenação) …
Em Portugal, também cá estão. Ricardo Espírito Santo, Oliveira e Costa, Duarte Lima, Dias Loureiro, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, são apenas alguns dos exemplos mais ventilados ultimamente, cujos nomes estão associados a práticas de natureza ilícita e criminosa. Mas, mesmo sem o nome associado a tais práticas, exemplo do espírito de casta superior ficou bem patente no caso de António Domingues, quando este pretendeu obrigar o poder político (felizmente sem êxito apesar das vacilações) a redigir uma lei à medida que lhe permitisse evitar a declaração pública dos seus rendimentos.
Em Portugal, como no mundo, esta casta só permanece viva e ativa pelo domínio que ela ou os seus agentes são capazes de exercer sobre o poder político, mas também porque o próprio poder político quando aliado ou mesmo infiltrado pelos seus agentes se deixa dominar, ainda que a Lei Fundamental da República expressamente o contradiga. Só foi possível à casta promover no país a sangria para off-shores de 10 mil milhões, sem controlo, entre 2011 e 2014, por negligência do secretário de um governo de partidos da direita. Mas além desses 10 mil milhões, desta vez declarado, saiu do país com o mesmo destino outro tanto no mesmo período, e depois mais 9 mil milhões só em 2015. Hoje sabemos bem quantos pobres, sofrimento e desinvestimento público custaram estas transferências. Sabemos que é divisada direita facilitar a vida aos poderosos e endinheirados e impor o rigor e a abstinência aos mais fracos. Sabemos que o PS, mesmo envergonhado, também por vezes o faz.
Mas mau grado o proclamado fim das ideologias, a verdade é que esta promiscuidade ilegítima e a privatização da economia, objetivadas pela “casta superior”, não têm qualquer acolhimento numa esquerda digna desse nome.