Leituras e Escritas do Mundo (I) - (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus

O Mundo que aí está é inóspito, onde é muito desagradável morar e habitar. Um mundo de violência, de muitas formas de violência, de terrorismo, de muitas formas de terrorismo. Mas não chegámos aqui por acaso, há causas, há razões. Todos e cada um são responsáveis. Uma Sociedade, uma Instituição, qualquer organismo humano, é, ou não é, o que as pessoas que aí habitam ou trabalham são ou não são. Já os gregos, na época clássica, o viram e disseram com nitidez.
Como intervir neste nosso Mundo, tão violento, agressivo, cheios de incertezas, mudanças permanentes, imprevisibilidade onde parece que os valores maiores desapareceram e desapareceu o sentido do Sagrado, que se deve ou pode conciliar com a “laicidade sadia”, na expressão de Bento XVI, num livro da sua autoria intitulado “Aprender a acreditar”.
E hoje há uma fratura entre fé e razão e há várias formas de descrença. Em que é que as pessoas acreditam, em que acreditamos? E será que acreditam? Há uma grave crise de confiança e de credibilidade que atinge o plano económico, financeiro e moral. As pessoas já não são de confiar nem de fiar. Antigamente dava-se fiado porque as pessoas acreditavam umas nas outras e a Palavra tinha valor. Eis a maior crise de todas, a crise da Palavra e na palavra. Não basta argumentar, é preciso fazê-lo com e em valores. E mais do que argumentar, é preciso comunicar e mais do que comunicar é preciso falar. Sobre estes temas poderíamos citar vários autores. Cito o Professor Doutor José Enes, que tanto escreveu sobre a Palavra, o ato de expressar, o Pensamento e a Linguagem. No livro à Porta do Ser (1969) – livro atualíssimo, cheio de futuro - afirma José Enes: “O pensamento conduz à fala como quem conduz o ânimo humano à própria casa. […]. O pensamento, por conseguinte, é essencialmente falante. Sendo assim, segue-se, também, da mesma essência manifestativa da fala, que o pensamento, falando a fala, fala-se a si mesmo. […]” (Enes, 1969, 28 – 29).
Onde está na Sociedade e no Mundo a coragem de pensar?, a coragem do pensamento, da verdade de o manifestar? Traindo o pensamento e a sua manifestação verdadeira o ser humano trai-se a si mesmo e vai criando uma Sociedade de mentiras e de enganos. O Mundo – nas suas várias dimensões e manifestações – não pode avançar com paralíticos do pensamento, nem, em termos metafóricos, com dislexia de pensamento, de fala e de escrita, sublinho, em termos metafóricos. Por isso diz o provérbio: “a boca fugiu-lhe para a verdade”. Essa é a sina e o fado do homem, do ser humano, comprometer-se, em verdade, no que diz e faz. Por isso são muito importantes os discursos. E, todavia, em certos universos político-partidários as pessoas desconfiam deles, pura e simplesmente não acreditam neles. Há muito para regenerar, em valores, nos discursos humanos. Tudo é texto e contexto. É preciso fazer leituras críticas, reflexivas e interpretativas do Mundo, para que ele avance, para mais e melhor.  
Saber falar – e todos sabem, se forem verdadeiros – é da maior responsabilidade e, ao contrário, com que ligeireza ouvimos falar todos os dias, com que facilidade as pessoas mentem, sem se aperceberem que ficam prisioneiras do que dizem e capturadas nas suas redes e armadilhas. Todos os dias há mais desinformação, ocultação e produção de declarações falsas e mensagens tóxicas, que envenenam a relação entre as pessoas e entre os responsáveis – sempre transitórios – das nações e povos. E saber como João Paulo II sempre chamou a atenção para os direitos dos povos – de cada povo -, ao mesmo tempo, que, antes, exortava, sempre, para os direitos humanos, para os direitos da pessoa humana. Como falou da Europa, da queda do Muro de Berlim, do desmoronamento do comunismo, do que se passava em todo o Mundo, como se opôs, até ao fim, à intervenção militar no Iraque. Faleceu em 2005. Todos se curvaram perante a Figura de João Paulo II. Todos se curvaram perante a sua morte.  
Estamos em 2017.  
O que aprendemos com a História? Nada ou quase nada. E, no entanto, é à História que vamos buscar a Memória e a Luz para avançar e fazer futuro. Mas que leituras e escritas estamos a fazer do Mundo? Do nosso Mundo, desde o mais pessoal e próximo ao mais longínquo, em termos físicos. E tudo fica perto pelos meios de comunicação social e outros meios de informação, já à mistura com o falseamento da informação, em mentiras que se escondem em noções como “pós-verdade” e “factos alternativos”.  
É esse o nosso Mundo. Mas o diagnóstico e a leitura sobre o que acontece, sobre o que há, não nos impede, bem pelo contrário, de pensar e realizar outros Mundos, outros Mundos a Haver, como sonhava, com grande sentido histórico e de realidade, o Filósofo Agostinho da Silva.
E um dos graves problemas que o Mundo enfrenta é o do Ambiente, mesmo que negado pelo economicismo e politicismo mais primário e acéfalo.
Precisamos do Ambiente da Natureza e do Ambiente Humano. Precisamos de um Mundo mais Ecológico, mais Respirável.
E Deus, na Sua Bondade, no Ato Criador, Original, viu que tudo era bom. Tudo o que saiu do Seu Verbo Criador e se fez Realidade, Mundo Físico, - natural e sobrenatural - era Bom. A Criação Original de Deus é um Poema Singular e Irrepetível.  Mas onde o homem põe as mãos estraga ou tende a estragar tudo. Foi assim, em tempos primordiais, desde os Primórdios. Foi assim, é assim, no Curso da História, que se faz no Espaço e no Tempo. Nos Génesis e desde o Génesis está tudo. É preciso fazer essas leituras. Tantas e plurais. “Deus viu que isto era bom” (Génesis, 1, 11 – 12).

Na Carta Encíclica Laudato Si, Sobre o Cuidado da Casa Comum, o Papa fala para o Mundo, para crentes e não crentes.
Afirma o Papa Francisco: “A atitude basilar de se autotranscender, rompendo com a consciência isolada e a autorreferencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente; “ (Francisco, 2015, p. 138). Quem não gosta de fruir de um bom ambiente natural e humano para viver? As migrações são também essa busca e os refugiados estão em êxodo, à procura da Terra Prometida, em Busca de Deus. Todos andamos - cada um à sua maneira - à Procura de Deus, da Paz, da nossa Harmonia de Ser, do Direito a ter Direitos.  
Quem educar o seu coração para a paz, rejeita a guerra e a violência como agressões e destruição. É preciso “renunciar” e abrirmo-nos ao “mistério” e à “compaixão”, talvez dos valores humanos mais profundos e mais universais. É preciso uma Educação profunda, que tenha conteúdo, sentido e seja portadora de valores.
Afirma o Papa Francisco:

“A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de ordenar os itinerários pedagógicos de uma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão” (Francisco, 2015, p. 139).

Para além das questões do Ambiente em relação à Natureza, há que atender – como vimos e dissemos - ao Ambiente Humano. As Sociedades, os Territórios, as Nações e Países devem expressar uma solicitude que se manifeste, manifestam, – ou não – nos rostos das pessoas. O acolhimento começa no olhar, no modo como nos vemos uns aos outros. Quem praticar a maldade deve ser punido, muito mais se essa maldade for intencional. Mas, acima de tudo, há que resgatar a Esperança, na vida pessoal e comunitária. Também em relação à União Europeia que está a passar por fases muito conturbadas, é preciso dar atenção. Se cada um puxar para o seu lado, se cada país puxar para o seu lado, poderá ficar em risco o projeto comum da Europa, fundado em valores de Democracia, de Liberdade, de Paz e Desenvolvimento. Mas a solidariedade tem de ter conteúdo e expressão concreta.
[…].

Nota: Este texto é uma parte do Texto Integral lido no 1º Programa Leituras e Escritas do Mundo, da autoria do próprio, proferido na Rádio Atlântida, no dia  02 de abril deste ano de 2017, sobre o tema geral  (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus. O Programa encontra-se disponível, na íntegra, para audição, no Arquivo Digital (PODCAST) da Rádio Atlântida.

*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação

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