Leituras e Escritas do Mundo (II) - (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus

O Papa Francisco tem dado Lições ao Mundo e aos líderes políticos. Ele, sim, tem feito as leituras corretas das escritas, umas boas outras más, deste Mundo em que vivemos e que vivemos. Interpelando a Europa, o Papa Francisco formula várias questões. E nesta linha são tão oportunas e certeiras as questões formuladas pelo Papa Francisco:
“Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade? Que te sucedeu, Europa terra de poetas, filósofos, artistas, músicos, escritores? Que te sucedeu, Europa mãe de povos e nações, mãe de grandes homens e mulheres que souberam defender e dar a vida pela dignidade dos seus irmãos?” [itálico nosso] (Papa Francisco, no seu Discurso de Agradecimento, proferido na Sessão em que lhe foi entregue o Prémio “Carlos Magno, na Sala Régia, 6 de maio de 2016”).
O Papa continua a sua reflexão, da qual extraímos, apenas, alguns excertos, de um Discurso que muito nos ajuda a pensar humanamente a Europa e o Mundo. De seguida, citamos aspetos do pensamento do Sumo Pontífice, que, por si, nos faz meditar profundamente, com sentido retrospetivo e prospetivo, em Horizontes de Futuro.
“(…)
 “A criatividade, o engenho, a capacidade de se levantar e sair dos seus limites pertencem à alma da Europa. No século passado, ela deu testemunho à humanidade de que era possível um novo começo: depois de anos de trágicos confrontos, culminados na guerra mais terrível de que se tem memória, surgiu – com a graça de Deus – uma novidade sem precedentes na história. As cinzas dos escombros não puderam extinguir a esperança e a busca do outro que ardiam no coração dos Pais fundadores do projeto europeu. Estes lançaram os alicerces dum baluarte de paz, dum edifício construído por Estados que se uniram, não por imposição, mas por livre escolha do bem comum, renunciando para sempre a guerrear-se. Finalmente, depois de tantas divisões, a Europa reencontrou-se a si mesma e começou a edificar a sua casa.
(…)
Continua o Papa Francisco:
“O escritor Elie Wiesel, sobrevivente dos campos nazistas de extermínio, dizia que hoje é de importância capital realizar uma «transfusão de memória». É preciso «fazer memória», distanciar-se um pouco do presente para ouvir a voz dos nossos antepassados. A memória permitir-nos-á não só de evitar cometer os mesmos erros do passado (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 108), mas dar-nos-á acesso também às conquistas que ajudaram os nossos povos a ultrapassar com êxito as encruzilhadas históricas que iam encontrando. A transfusão de memória liberta-nos da tendência atual, muitas vezes mais fascinante, de forjar à pressa, sobre areias movediças, resultados imediatos que poderiam produzir «ganhos políticos fáceis, rápidos e efémeros, mas que não constroem a plenitude humana» (ibid., 224).
Por isso, - continua o Papa – “será útil evocar os Pais fundadores da Europa. Eles souberam procurar estradas alternativas, inovadoras num contexto marcado pelas feridas de guerra. Tiveram a audácia não só de sonhar a ideia de Europa, mas ousaram transformar radicalmente os modelos que provocavam apenas violência e destruição. Ousaram procurar soluções multilaterais para os problemas que pouco a pouco se iam tornando comuns.”
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Referimos, para terminar, as seguintes afirmações do Papa Francisco:
Esta transfusão de memória permite inspirar-nos no passado para enfrentar corajosamente o complexo quadro multipolar dos nossos dias, aceitando com determinação o desafio de «atualizar» a ideia de Europa; uma Europa capaz de dar à luz um novo humanismo baseado sobre três capacidades: a capacidade de integrar, a capacidade de dialogar e a capacidade de gerar.
(…)
As raízes dos nossos povos, as raízes da Europa foram-se consolidando no decurso da sua história, aprendendo a integrar em sínteses sempre novas as culturas mais diversas e sem aparente ligação entre elas. A identidade europeia é, e sempre foi, um dever para com todos. Sonho uma Europa da qual não se possa dizer que o seu compromisso em prol dos direitos humanos constituiu a sua última utopia.”
Papa Francisco, no seu Discurso de Agradecimento, proferido na Sessão em que lhe foi entregue o Prémio “Carlos Magno, na Sala Régia, 6 de maio de 2016”).
Talvez fosse tempo – caros ouvintes – de ouvirmos uma canção tão bonita, intemporal, “We are the World” – “Nós somos o Mundo”. E a Europa é Mundo e mundos no Contexto do Mundo. (momento musical, letra e música).
Desafiamos a nossa reflexão na História e em relação à História.
E com a história o que se aprende? Em parte já o dissemos: Nada, rigorosamente nada, quando nos falta memória e capacidade de aprender com os erros, nossos e alheios. Mas os contextos mudam, transformam-se. O que podemos, então, fazer, se os protagonistas mudam, cometendo os mesmos erros? Sendo protagonistas de nós próprios, uns “ilustres desconhecidos” para o humano mas uns ilustres conhecidos para Deus e para o Universo, para o Mundo. Deus sempre nos chama pelo nosso próprio nome. Para onde quer que vamos estamos condenados a estar com Deus, nas alturas e nos abismos, nos montes e nos vales. Somos o nosso nome imemorial, que Deus docemente chamou. Vivemos, talvez sem disso termos uma consciência nítida, a “Nostalgia de Deus”.
No Livro Segundo Isaías, podemos ler, em signo de “Missão”: “Ouvi-me, habitantes das ilhas, prestai atenção, povos de longe. Quando ainda estava no ventre materno, o SENHOR chamou-me quando ainda estava no seio da minha mãe, pronunciou o meu nome” (Is, 49, 1).
Num tempo de Solidão, de tantas formas de Solidão, fazemos a pior das solidões, expulsamos o Deus Humano que há em nós. Tiradas as vísceras, o que fica, em humanidade de ser? Quem nos chama? Quem chama pelo nosso nome? De quem esperamos? Em que depositamos confiança? Estamos num humanismo de lama, de alienação, sem um toque divino ou um toque humano.
Precisamos do humanismo cristão numa civilização que faz da laicidade - necessária - um pretexto para um laicismo inóspito que legitima, indiretamente, fundamentalismos muito perigosos. Veja-se o que se passa na Europa e no Mundo. O ceticismo corrói, a crença acrítica expõe-nos aos lobos e inimigos. E hoje esse exame radical - que vai à raiz - é condição para resgatar. Só o Olhar Generoso de Deus nos pode salvar e regenerar. Também a essa Luz podemos ler o Livro do Papa Francisco: O Nome de Deus é Misericórdia.
Quem pensava, em primeiras impressões, apressadas, que o Papa Francisco vinha para facilidades e facilitismos, enganou-se redondamente. Este Papa tem dado vários murros no estômago da Humanidade e das Instituições, sem deixar de confrontar a própria Igreja católica consigo própria, no seu lado humano, com severos avisos e críticas, em tom de generosidade e de autocrítica.
Quem tem legitimidade de atirar a primeira pedra? Mas quem pode exercer a sua atividade profissional - ou o seu múnus - se não souber decifrar o sentido do seu Magistério e Ministério, seja ele qual for? O que importa não são os doutores da lei mas a Mensagem Salvífica, o Espírito, deixarmo-nos surpreender pela realidade da Vida, ajuizando de modo ponderado, sem precipitações, sem acenar com a maldade do institucionalismo. O legalismo e regulamentalismo é próprio dos medíocres e do poder despótico, por mais aparentemente democrático e legítimo que possa parecer. O que importa é o espírito da lei, o que importa é a lei do coração, do perdão e da misericórdia.
[…].

Nota: Este texto é uma parte do Texto Integral lido no 1º Programa Leituras e Escritas do Mundo, da autoria do próprio, proferido na Rádio Atlântida, no dia  02 de abril deste ano de 2017, sobre o tema geral  (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus. O Programa encontra-se disponível, na íntegra, para audição, no Arquivo Digital (PODCAST) da Rádio Atlântida.


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação