Leituras e Escritas do Mundo (III) - (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus

Somos seres de falta, de falha e de imperfeição por isso se nos impõe a exigência, a autoexigência, o respeito mútuo. É tempo de levantar a bandeira dos valores maiores. Quanto estamos longe destes caminhos! Quanta falta nos fazem esses caminhos. Haveria mais e melhor Justiça, mais e melhor Educação, mais e melhor Cultura, mais e melhor tudo. A Lógica de Cristo foi outra, de facto, como nos ensina o Papa Francisco e os seus antecessores, - João Paulo II e Bento XVI -, como nos ensinam os Santos e Sábios. E como dar a volta a isto, a este mundo, sem outra lógica? Deixamos de nos reconhecer como irmãos. Então, o que podemos esperar de Deus? “Estamos sós e sem culpas”? ou será que estamos sós e com culpas? Não há nenhum cientismo que nos valha, não há nenhum cientismo que possa substituir o dever da Moral - em todos os setores - e da sua vivência. Aliás, o cientismo é, já, a degenerescência da verdadeira Ciência.
Caros ouvintes talvez seja tempo para ouvirmos outra Canção (música e letra) dos Il Divo, Aleluia.
Repugna-me a ganância, o luxo, a hipocrisia e a mediocridade. Também me repugna a caridadezinha de má consciência que nada tem a ver com a Lição da Caridade de uma Mulher tão frágil, mas com tanta força, que foi Santa Madre Teresa de Calcutá. O tempo que vem aí é um tempo de discernimento crítico. Reafirmo, vigorosamente, que a Pobreza e os sem abrigo não podem ser um negócio para quem quer que seja. Não estamos a parar para recriar a Sociedade, não à luz de modelos materialistas e economicistas, de sinais contrários, mas à luz do Humanismo Cristão, do Humanismo Humano, que não recusa, até, um genuíno humanismo laico, desde que a Pessoa seja princípio e fim em si mesma, como defende o Grande Filósofo Kant (1724 - 1804). Quem ouviu e seguiu o Grande Papa, Filósofo e Teólogo, São João Paulo II quando denunciou o “capitalismo selvagem”? É que do lado do capitalismo parece que as algibeiras estavam cheias, daí a crítica que lhe faziam em matéria de costumes. Uma visão redutora e, até, mesquinha, face a uma Figura de semelhante grandeza. Lembro-me das suas exéquias, da presença, impressionante, de líderes políticos e religiosos de todo o mundo, que se renderam, que tiveram de se render, na sua insignificância política - desde logo de países poderosos - face à Sabedoria e Visão de um Espírito Superior, de um Papa que sempre se opôs à intervenção militar no Iraque, como atrás afirmámos. O que estamos a aprender? Estamos a aprender? Queremos aprender? A História ensina-nos tanto e (quase) nada aprendemos com ela. Temos dito. O que é muito diferente da saudável reflexão que Nietzsche faz no livro Utilidade e Inconvenientes da História para a vida. 
E, todavia, somos e queremos ser, nestas Terras, os Açores, Irmãos do Divino Espírito Santo, que está sempre por se cumprir, em interioridade, para além da exterioridade, que pode ser um caminho, mas nunca O Caminho. É preciso mergulhar nessa imensa Interioridade - nos Açores Profundos, na sua Gente, de Alma Grande -  e nela encontrar uma Mesa de tantos Nós, vivos e mortos, que ficaram, em Espírito de Vida, também pelas vidas que viveram. Parece-me, às vezes, que os vivos estão cada vez mais mortos e os mortos estão cada vez mais vivos. Também nesse sentido que se restaure o Feriado do Dia de Todos os Santos. Mas recordar é pouco, evocar é mais, é mais fundo.
É preciso que a Literatura se faça Pão e Luz, se faça Educação e a Educação se possa nutrir de Letras que alimentam, para dar ser ao ser. É preciso cumprir as Bem-Aventuranças, pelas quais daremos conta no Juízo Final. E será a linha divisória ao que neste mundo já pode significar orientar a nossa vida, pessoal e coletiva, pela Categoria do Ser ou do Ter. O Ser é o Verdadeiro Ter que se partilha e compartilha, que se doa. Não o ter da moeda que cai da mão de quem não lhe faz falta. Há tantas formas de fome, há tantas formas de sede. Primeiro a física, cuidar do corpo, mas, igualmente, a fome e a sede espirituais, que ajudam a crescer, em estima. A metafísica que nos ensina que não somos apenas nem principalmente matéria - que degenera em materialismo - mas Espírito, que é fonte de abundância, de fartura, para dar e receber. Metafísica, de carne o osso, que nos faz olhar ao espelho, ver luz e sentir a dignidade de ser gente, ter trabalho, ter emprego, respeitar e ser respeitado.
A dignidade humana tem de ter um conteúdo concreto, caso contrário, é uma falácia perigosa na boca de sofistas, daqueles que fazem dos famintos e dos pobres objeto de investigação ou motivos de políticas sociais. Não. “O outro totalmente outro”, na expressão de Levinas, que me interroga, que nos interroga, que nos interpela, a fundo, a todos, recusando uma suposta solidariedade feita com o dinheiro que é de todos. Todos e cada um têm – e tem - de ser protagonistas das suas vidas, embora haja momentos em que seja necessário não apenas dar a cana mas também o peixe. Estamos tão longe do que significa, na sua raiz cristã, a palavra solidariedade e caridade. Mas cada um tem de descobrir o projeto que é, o projeto de ser que o habita, nas suas potencialidades e aptidões. As políticas públicas - seja onde for - têm de criar condições para que o outro seja quem é, quem deseja ser, quem quer ser como pessoa, em pessoa.  Ninguém pode ser expropriado do seu próprio ser. O Papa Francisco tem dado Lições ao Mundo, a partir de Roma, da Europa, - a partir de si mesmo - denunciando a situação dos excluídos, dos sem-abrigo, dos migrantes, dos refugiados. E todos nós somos, também, tudo isso potencialmente. E o Papa Francisco, de modo tão humano e intenso, faz-nos questionar e colocar no lugar do outro, - mesmo quando entra numa prisão -, para nos fazer sentir essas realidades, essas chagas que grassam no Mundo.
Também o Secretário Geral da ONU, Engº António Guterres, denuncia o grave desrespeito pelos Direitos Humanos, em todo o Mundo. Que Mundo é esse? Ainda há pessoas? Ainda há Instituições lideradas por pessoas de elevada estatura humana e categoria para os cargos que exercem? Aonde estão?
E estas perguntas, convergem para uma questão maior: Onde está Deus, no nosso Pensamento e no Horizonte das nossas vidas pessoais e coletivas?
Eis que irrompe o Silêncio.
Tempo para ouvirmos a Canção (letra e música, The Sound of Silence).
Tempo, agora, para referirmos alguns livros, alguns no seguimento de muitos dos aspetos que afirmámos: Os Fundamentos Espirituais da Europa, de Joseph Ratzinger; Um Ensaio sobre a Constituição da Europa, de Jürgen Habermas;  Não Nos Esqueçamos de Deus. Liberdade de Fé, Cultura e Política, de Angelo Scola; Europa. Os seus Fundamentos. Hoje e Amanhã, de Joseph Ratzinger; O Diálogo Indispensável. Paz entre as Religiões, de Raimon Panikkar; A Ideia de Europa, de George Steiner, com Prefácio de José Manuel Durão Barroso.
De seguida, propomos uma outra Canção. Desta vez Para os Braços da Minha Mãe, de Pedro Abrunhosa, com Camané, também. (audição da Canção).
Já quase no final deste Programa – Leituras e Escritas do Mundo – sobre o Tema (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus, temos muito gosto em ler um Soneto de Antero de Quental, que se intitula “Na Mão de Deus”.
Caros ouvintes, praticamente no final deste nosso primeiro Programa – Leituras e Escritas do Mundo – temos muito gosto em partilhar convosco, em ouvirmos, em conjunto, Ilhas de Bruma. Este nosso Arquipélago dos Açores, - os Açores. Miguel Torga afirma: “O universal é o particular menos os muros”. Estamos no Centro do Mundo. Os Açores são Mundo, são mundos, no conjunto e no Horizonte do Mundo. Ilhas de Bruma, que falam ao fundo dos Açores, ao fundo de cada um de nós, nas funduras e nas alturas, nesse nosso modo muito peculiar de ser que esta canção, esta bela canção, tão profundamente expressa, também numa dimensão metafísica e humana.
(Audição, Letra e Música, de Ilhas de Bruma).
Um bom dia para todos. Foi com muito prazer que convosco partilhámos Leituras e Escritas do Mundo.
O Mundo na Rádio, para Pensar com os cinco sentidos.         


Nota: Este texto é uma parte do Texto Integral lido no 1º Programa Leituras e Escritas do Mundo, da autoria do próprio, proferido na Rádio Atlântida, no dia 02 de abril deste ano de 2017, sobre o tema geral  (des)Caminhos do Mundo à Procura de Deus. O Programa encontra-se disponível, na íntegra, para audição, no Arquivo Digital (PODCAST) da Rádio Atlântida.


*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação