Independentes de quê?

Com um voto expresso e público de fidelidade, vontade de servir e amor a Ponta Delgada Álvaro Dâmaso, ex-dirigente regional do PSD, anunciou a sua candidatura à Câmara Municipal desta cidade como…”independente”!
Pouco tempo depois, e após o PSD ter apresentado a recandidatura de José Bolieiro à mesma autarquia, Dâmaso dá o dito por não dito e, pela boca do responsável regional daquele partido, anuncia a sua desistência.
É legítimo pensar que, ao anunciar a sua candidatura como independente, Dâmaso visaria provavelmente antecipar-se a uma candidatura partidária do PSD e conseguir com isso arrastar até, além do apoio do PSD, o apoio de outros partidos e cidadãos de áreas políticas diferentes do PSD, ao jeito do que fez Rui Moreira no Porto, ou Décio Pereira na Calheta, em S. Jorge. Porém, após a sua desistência, resta muito pouca legitimidade para pensar na real “independência” da (ex-) candidatura de Dâmaso…
Todo este imbróglio à volta das candidaturas ao maior município dos Açores levanta uma questão pertinente, a das candidaturas municipais ditas independentes. Olhamos para Oeiras, no continente, e vemos Isaltino Morais a pretender regressar como “independente” em 2017 (e defrontar o seu afilhado “independente” Paulo Vistas), tal como já aconteceu com o “independente” Valentim Loureiro em Gondomar, ambos ligados à área do PSD mas dela afastados por conexões processuais com a justiça. Olhamos para o “independente” Narciso Miranda, em Matosinhos, e vemos um homem do PS, partido de onde foi excluído. Olhamos para Avelino Torres, de Marco de Canaveses, e vemos um “independente” hoje e um homem do CDS amanhã, ou vice-versa. Olhamos para o “independente” Marco Almeida, em Sintra, e vemos um homem do PSD, que o PSD não quis apoiar em 2013, etc. etc.
Enfim, sem falar das muitas listas não partidárias concorrentes às freguesias (como na minha, em Santa Clara) que, por estarem confrontadas com problemas muito concretos, refletem em geral uma união de vontades que vai para além dos partidos (e não contra eles), na maioria dos casos as listas de “independentes” nos municípios aparecem ou porque os seus cabeças não foram os escolhidos pelo seu partido, ou porque, sendo afetos a este ou àquele partido, estão a contas com a justiça, ou porque se têm em boa conta de si e calcularam erradamente que o partido a que estão ligados poderia servir de trampolim útil para a concretização das suas ambições políticas pessoais…
Tudo isto resulta afinal da confusão, propositada ou não, entre as chamadas listas de “independentes” e as (legais) listas de cidadãos eleitores. Estas últimas, embora não dependentes de um partido ou coligação, podem incluir no seu seio candidatos de diferentes partidos ou sem partido nenhum. Os verdadeiros independentes, esses não têm listas próprias, de acordo aliás com o sentido da palavra “independente”, e, tal como é habitual, tanto podemos encontrá-los nas listas de cidadãos eleitores como nas listas partidárias.
Insistir em colocar a etiqueta dos “independentes” nas listas municipais de cidadãos eleitores decorre não poucas vezes da intenção de as opor, como fonte de virtudes (que a realidade muitas vezes desmente), às listas apresentadas pelos “corruptos” partidos políticos, o que levado ao absurdo desembocaria provavelmente na condenação da própria existência dos partidos. Mas onde é que já vimos este filme?
Ainda pensando nas apregoadas virtudes das ditas listas de “independentes” e a propósito das eleições para o parlamento açoriano, aqui fica à reflexão da Comissão Eventual para a Reforma da Autonomia…