A União Europeia não é um banco

A minha formação humanista teve como suporte a cultura greco-romana e judaico-cristã. Os meus professores formaram-se em universidades europeias e aí beberam as ideias do pensamento europeu moderno, derivado da Reforma e da Revolução Francesa.
A influência da cultura francesa na minha geração foi tal que, o curriculum liceal obrigava os alunos a terem cinco anos de Francês e apenas três de Inglês. A própria História universal relevava a França em detrimento de outras grandes nações. Isso fez com que ligássemos mais às novas experiências e doutrinas que chegavam de França e de outros países francófonos.
Os tempos hoje são diferentes.
Na ordem do dia, estão a ideologia e as propostas dos candidatos ao Eliseu situados entre a extrema-direita e o centro, o que me leva a pensar que os supremos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, que se expandiram para todas as latitudes, são subvertidos por velhas ideologias que julgávamos arredadas do pensamento político contemporâneo.
O ciclo histórico que vivemos tem-nos trazido muitas surpresas: a eleição de Trump, o Brexit, a ameaça e ascensão ao poder de políticos e partidos europeus de extrema-direita, a crise da União Europeia, tudo resultantes de acentuadas diferenças sociais e do atropelo aos direitos humanos, que levam os cidadãos a olharem para a Europa, com uma acentuada descrença e grande preocupação.
Em Portugal, a integração na CEE, em 1 de janeiro de 1986, trouxe benefícios incalculáveis, sobretudo para as regiões menos desenvolvidas.
Nos Açores, o estatuto de Região Ultraperiférica consagrou a majoração de apoios financeiros destinados a debelar uma série de condicionantes que envolvem diferentes setores de atividade: das pescas à agricultura, dos transportes e comunicações à educação, do ambiente à indústria, etc.
Os vários pacotes financeiros permitiram, em trinta anos, alavancar o desenvolvimento socioeconómico açoriano, embora muito haja ainda a fazer.
O Orçamento Regional para 2017 prevê a transferência de cerca de 207 milhões de euros da UE, destinados a investimentos nos vários setores de atividade, enquanto as transferências do Estado para a Região foram de 80 milhões apenas.
Há, pois, que aproveitar bem as avantajadas verbas vindas de Bruxelas, para que possamos ultrapassar, de uma forma sustentada, os constrangimentos inerentes à insularidade, e não nos tornarmos um povo de invertebrados pedintes.
Causa-me certa estranheza ver a sobranceria do discurso permanentemente acusatório de responsáveis da lavoura açoriana, ameaçando o governo de manifestações por todas as ilhas, exigindo soluções para os seus problemas e a satisfação das suas pretensões. Como se a lavoura e os produtores não fossem responsáveis pela gestão e riscos da sua atividade e vivêssemos numa economia dirigida, ou do Estado patrão.
A ser assim, não nos espantemos de ver o comércio tradicional, o setor dos transportes e comunicações, os pequenos empresários de construção civil, os desempregados e outros, reivindicarem também programas e apoios específicos no âmbito do POSEI, para ultrapassarem as graves dificuldades por que passam.
Todos sabemos o quão tem sido beneficiada a agricultura no seu crescimento produtivo, cujos resultados estão à vista. Mas não se pode atribuir às entidades governamentais a má gestão de lavouras, os constrangimentos do mercado, ou a incapacidade da indústria para inovar e modernizar os produtos láteos. Repito: não vivemos numa economia dirigida, mas numa economia livre.
Para muitos, a UE a 27 foi encarada apenas como uma entidade financiadora de projetos e investimentos regionais, e pouco importou se foram bem ou mal geridos e se eram ou não sustentáveis.
Perante a incerteza de uma União Europeia que por estes dias assinala mais um aniversário da declaração de Robert Schuman, feita em Paris em 1950, os cidadãos dos Estados Membros têm de refletir se preferem pertencer a uma Europa pautada pela “cooperação pacífica e pelo respeito pela dignidade humana, pela liberdade, democracia, igualdade e solidariedade entre nações e povos europeus” , ou se só pretendem ser clientes de um banco rico de um momento para o outro pode fechar a torneira dos euros.
É que uma UE assim, não tem futuro.

*Jornalista c.p.536
http://escritemdia.blogspot.com