Recordando o Prior José Luis de Fraga

- virtuoso sacerdote e impulsionador da música e do folclore regional

Há dias o Grupo Folclórico da Fajã de Baixo comemorou 43 anos de existência, tendo havido no Centro Cultural Natália Correia na Fajã de Baixo uma sessão evocativa deste acontecimento, na qual houve um momento musical e feita uma resenha histórica da vida daquele agrupamento e ainda sido salientadas várias figuras que no «antigamente» muito contribuíram para a divulgação do folclore e da musica regional, desde os seus primórdios.
De entre essas figuras recordadas evocou-se a figura do Padre José Luís Fraga, como um dos seus primeiros e grandes impulsionadores, pela notabilidade que pode desenvolver para que a música e o folclore que nos legaram os nossos antepassados «regressassem», naturalmente, à partilha dos valores culturais do povo açoriano.
Aliás, por coincidência – se bem que em tempos diferentes - no período desta Páscoa, a propósito da colaboração que publiquei neste Jornal, recordei a sua figura quando pároco da freguesia de S. Pedro, mas na qualidade de «orador-oficial», das principais cerimónias religiosas que se realizavam na Igreja de S. José, onde fui paroquiano durante mais de 50 anos.
Desde então, fui-me habituando a «entender» a sua vasta cultura teológica e também o sentido humano que inspiravam as suas palavras, decerto pela grande aproximação que sempre demonstrou para com as famílias mais carenciadas da sua área paroquial, onde uma parte vivia do mar.
Era nítido que estávamos perante Alguém que sempre pregou o Evangelho da caridade e do amor, ao mesmo tempo que não tinha pejo em denunciar os grandes males que enfrentavam a sociedade local daquele tempo, ainda muito no seguimento da ressaca provocada pela 2ª guerra mundial e dos efeitos que teve no plano económico, incluindo a falta de trabalho, o que obrigou ao que pode dizer-se à 2ª grande fase da emigração, sobretudo para o Canadá, isto no inicio da década de 50.
Também recordo que, numa Quinta Feira Santa ia caindo «o carmo e a trindade», após o sr. Padre Fraga ter pronunciado o sermão do lava-pés, (que antes do Concilio era de tarde, separado da missa celebrativa da instituição da Eucaristia); e, entre nós, era tradição que durante o período da Páscoa se realizassem torneios de futebol com a participação de equipas açorianas, sobretudo da Terceira. E, a Associação de Futebol de Ponta Delgada entendeu marcar um desses encontros para a tarde de sexta-feira Santa!
Do alto do púlpito o sr. Padre Fraga, com a firmeza que lhe era tão peculiar, discordou da intenção e acrescentou que a única resposta dum cristão seria pura e simplesmente ignorar o facto e não comparecer.
Já se vê que a Associação de Futebol, que era presidida por António Horácio Borges, não gostou da «sugestão» e na imprensa aduziu das razões que, em seu entender, em nada comprometiam a solenidade e o simbolismo do dia.
Naquele tempo era assim, cada momento tinha o seu lugar próprio…
Quando em 1953 fiz estágio na escola S. Pedro, no edifício do «Plano dos Centenários» que ainda hoje se situa na Rua Mãe de Deus; e, no ano lectivo de 1954/55, ali trabalhei já como professor, coube-me uma turma da 4ª classe.
O ambiente escolar era amigável e a presença do Senhor Padre Fraga para orientar as lições de Moral e Religião constituía sempre um especial e diferente espaço de convívio, que tanto aproveitavam tanto os alunos como os professores, tal era a intuição como se dispunha a orientar o tema das lições.
E, se por um lado se aperfeiçoavam as verdades da Fé, por outro, obrigava-nos a reflectir o verdadeiro sentido da vida e até da camaradagem e a ajuda-mútua que deveria existir entre todos, conceitos que iam muito para além duma catequese dominical.
Mas o que de mais original distinguia essa sua presença era o facto de se fazer sempre acompanhar dum gravador - coisa rara naquele tempo- que transmitia através de bobines em fitas gravadas o que era, entre nós, um instrumento raro, só conseguido para quem tinha um amigo na Base das Lajes ou então um parente nos Estados Unidos.
Esse facto que tanto ilustrava a sua intuição de educador era factor que não só amenizava a lição, mas sobretudo procurava incutir nos alunos o conhecimento pela música regional açoriana, como ainda os despertava para os valores mais intrínsecos duma cultura que nos havia legado os nossos antepassados, quem sabe mesmo desde o povoamento.
O Sr. Padre Fraga rodava e tornava a rodar o material musical precioso que as bobines continham e, de semana para semana, era visível que os alunos se iam entusiasmando por uma arte musical que andava um tanto ou quanto esquecida  dos nossos gostos culturais, incluindo os balhos populares.
Recordo que um dos meus alunos desse tempo era o Victor Melo - que sempre deve ter acompanhado, com especial interesse, esses momentos de prazer - e até os soube absorver, de tal maneira com a intuitiva mestria que lhe transmitiu o sr. Padre Fraga, que é hoje um elemento dos mais valiosos na divulgação, no estudo e na investigação da música regional, aliás uma qualidade a que se juntaram tantos outros que, como ele, continuaram a dedicar-se à recolha folclórica, transmitindo esse dom pelas novas gerações.
Por obra que não é do acaso, senti a feliz oportunidade de com ele trocar algumas informações que confirmassem o conteúdo desse testemunho; e, porque são passados mais de 60 anos, pude ter a alegria de saber que após as audições que o senhor Padre Fraga transmitia, toda a classe passou, doravante, nos tempos destinados ao canto coral, a entoar não só as canções que obrigatoriamente os manuais da Mocidade Portuguesa exigiam, como também nos dedicamos à música folclórica que habilidosamente saíra daquele precioso gravador…
Posso pois afirmar que o senhor Padre Fraga deve ser mesmo considerado como um dos precursores que lançou as primeiras bases da música regional pelas escolas por onde passou; e nelas deixou um especial rasto de sensibilidade e de simpatia, proporcionando que os professores pudessem ser capazes de introduzir uma prática de açorianidade na aprendizagem, porque mais tarde essas canções surgiram nos orfeãos que animavam as festas escolares e, anos depois, até apareceram alguns grupos folclóricos infantis.
Creio, igualmente, que deve ter constituído uma achega valiosa nesse empolgante conhecimento e divulgação da música folclórica, o facto de, em 1953, como bolseiro da Junta Geral do Distrito, ter estado entre nós a proceder a uma recolha dos nossos cantares, o Professor Artur Santos, considerado então a maior autoridade no seu género no pais, pois após as recolhas que realizou em várias ilhas, as mesmas foram gravadas e chegaram a preencher muitos dos programas produzidos pelo então Emissor Regional dos Açores, o que ajudou a «agitar» essa onda de interesse que foi envolvendo a população local.
Com a cooperação de Manuel Inácio de Melo, (seu paroquiano /autodidacta e sempre desperto para os valores culturais e etográficos do povo), o Senhor Padre Fraga ajudou a fundou o grupo de Cantares «Tavares Canário», a que se seguiu a criação do «Grupo Folclórico de S. Miguel», enfim um período de excepcional valor no conjunto do nosso panorama músico/cultural e que hoje representa um dos mais representativos valores patrimoniais onde quer que represente S. Miguel em terras estrangeiras e mesmo no continente português.
Ainda no campo sacerdotal exerceu as funções de substituto do ouvidor de Ponta Delgada; e, uma das ausências de monsenhor José Gomes coincidiu, em Junho de 1948, com a primeira vista a S. Miguel da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, cabendo ao senhor padre Fraga a organização do triunfal programa delineado para cada uma das nossas freguesias.
Esse acontecimento foi depois reunindo em livro, por iniciativa de Manuel Inácio de Melo e constitui hoje um documento histórico de grande valor pelos emocionantes momentos de Fé e de apoteose que registam.
Por indicação do Bispo D. Manuel Afonso de Carvalho, o Sr. Padre Fraga foi anos depois colocado em Vila Franca do Campo, como Prior da histórica Igreja Matriz de S. Miguel e ainda como ouvidor eclesiástico, onde continuou a sua notável obra apostólica e cultural, que ainda hoje é ali recordada, na complementaridade da época dos «padres-mestres» que preparavam alunos para o ensino secundário e também para os estudos preparatórios no Seminário de Angra.
Os contactos que com ele mantive rarearam mais, mas sempre acompanhei por via do meu colega e Amigo Professor Teotónio Machado de Andrade o seu continuado percurso sacerdotal, pois os dois também mantinham um comum interesse pelos estudos etnográficos e musicais.
Aliás, também nos chegamos a encontrar naquele agradável convívio anual de amigos que o professor Teotónio promovia no belo recanto que era a sua «Fonte Milagrosa», ali para os lados da Rua da Cancela, para uma prova dos «sabores da Vila», que era mestre em preparar.
Era um momento de rara e amena cavaqueira e tinha como habituais convivas o Poeta Armando Cortes Rodrigues, o prof. José da Costa, o Reitor Dr. João Anglin, o Dr. Augusto Botelho de Simas e também Manuel Inácio de Melo, bem como outras pessoas ligadas às letras e às artes.
E, nesta quadra, do Poeta Armando Cortes Rodrigues, tudo se expressa:   
   
    Esta Fonte Milagrosa
    É recanto de amizades:
    Quem vem encontra ternura;
    Quem parte leva saudades.

Depois veio a doença … e a paragem habitual do senhor Padre Fraga, tantas vezes acompanhado pelo professor Teotónio, passou a ser à sombra do velho cedro que existia no Jardim público, onde ambos naturalmente discorriam sobre as coisas da Vila, da sua história e também do seu folclore.
São estas as saudosas imagens que ainda hoje guardo do Prior José Luís de Fraga, infelizmente uma figura que a cidade esqueceu… e que bem merecia ser reavivada pela obra apostólica e cultural que nos deixou. Aliás foi um sacerdote que esteve sempre muito acima do que era comum nos movimentos da vida da Igreja.
E foi pena que não pudesse ter vivido, em plenitude, os conceitos expressos no Concilio Vaticano II, pois pelo seu perfil de pensador acredito que, em muitas ocasiões, talvez o tivesse antecipado!