Os açorianos ainda não sabem cantar o Hino dos Açores!...

A presença entre nós do Senhor Presidente da República veio uma vez demonstrar que passados 36 anos sobre a data em que foi aprovado na Assembleia Regional, o Hino dos Açores, ainda muito poucos são os açorianos que o sabem entoar (por vezes mesmo com a ajuda duma «cabulazinha»), apesar das nossas bandas de músicas presentes nas cerimónias oficiais por uma questão de protocolo e de sentido cívico e, por que não dizê-lo, mesmo patriótico, o tocarem conjuntamente com o Hino Nacional.

Tive a oportunidade de observar melhor este lapso numa cerimónia em que, por feliz coincidência, estive perto do Professor Marcelo Rebelo de Sousa e não deixei de sentir que cantado o Hino Nacional, conjuntamente com os sons duma banda de música, foi perceptível que deixou transparecer um certo e natural desconforto pela mudez dos presentes.

Mas muito mais desagradável foi que na sua triunfal visita pelas nossas ilhas, aconteceu o mesmo, (basta recordar as imagens da Televisão), logo no momento da chegada ao Corvo, a não ser quando um ou outro conjunto coral participava numa cerimónia, dava o «tom» e cada um ia relembrando aqui e ali as estrofes do Hino que Natália Correia, num momento de feliz concepção poética compôs para ser adaptado à música do primeiro Hino composto em 1894 pelo maestro Artur Lima, para a Banda «Progresso do Norte» de Rabo de Peixe.

A letra desse 1º Hino era da autoria do professor António Tavares Torres, um autodidacta de raro merecimento que prestou relevantes serviços à freguesia de Rabo de Peixe, sua terra natal, à administração municipal da Ribeira Grande e ao Ensino:

 

 O clamor açoriano,

 Em sã justiça fundado,

 Pede essa ampla liberdade

 Que se deve a um povo honrado.

Aliás é bom recordar que quem muito contribuiu para pôr os portugueses do continente a cantar o Hino Nacional, sobretudo no início dos grandes desafios de futebol internacional, inclusivé os jogadores, foi um brasileiro, o grande treinador Scolari, aliás num gesto de cidadania que ainda hoje não foi esquecido e, felizmente, que se repete agora em idênticas ocorrências... 

Há semanas li um comentário muito apropriado a esse respeito, fazendo a comparação com o que se passava com os estrangeiros, sobretudo os americanos que até cantam o seu hino com a mão direita sobre o coração, numa motivação de amor pela pátria de origem ou que lhes deu acolhimento, como é o caso dos portugueses.

 

No meu tempo de escola, já lá vão cerca de 78 anos (!) e mesmo muito antes, as aulas começavam pelo Hino Nacional… mas creio que após o 25 de Abril este gesto ou foi abolido ou esquecido… Não tenho conhecimento de ter recebido uma ordem de serviço para esse «calar», mas o certo é que com este simbólico gesto não só glorificava a Pátria, como ainda ajudava a educar os alunos pelos seus mais representativos valores.

 

Desde o primeiro Governo Regional, da Presidência do Doutor João Bosco da Mota Amaral que a Secretaria Regional da Educação tem feito uma ampla divulgação do Hino dos Açores pelas escolas, naturalmente para que os alunos o aprendam na oportunidade que melhor os professores entenderem e até o possam passar aos seus familiares, numa atitude de interajuda.

Seja como for, as coisas passam-se como se nada tivessem sido aconselhadas; mas fala-se de autonomia, de direitos e de deveres; contudo há atitudes e gestos complementares que têm de ser «aprendidos»: o Hino é um deles!

Aliás gosto sempre de recordar que em 27 de Junho de 1984 o orfeão do Colégio de S. Francisco Xavier regido pela professora D. Eduarda Cunha Atayde creio que na altura composto por 70 elementos entre os 8 e os 12 anos, cantaram pela primeira vez o Hino dos Açores, repetindo o feito num memorável espectáculo que a Biblioteca Juvenil de Ponta Delgada organizou em 16 de Dezembro de 1986, para celebrar os «10 Anos de Autonomia Regional».

Lembro-me de ter sido preciso adaptar umas «fusas» ou «semi-colcheias» a um ou outra entoação para que a letra assentasse bem na música!

Foi um êxito, pela sua mestria e também porque a partir dali muitas outras escolas se motivassem a fazer o mesmo; e, de facto, tive a alegria de verificar que seguiram aquele emotivo exemplo, pois nas festas escolares que se depois organizaram, o Hino dos Açores era cantado no início ou no fim do espectáculo, conforme era a organização do programa.

Desconheço como se passam hoje as coisas, mas creio que a sentimentalidade açoriana ali bem expressa, merecia perfilar-se no mesmo pé de igualdade do Hino Nacional, isto é, entoado por todos em uníssono!

É um trabalho que não deve ser desenvolvido só nas nossas escolas, mas também nas nossas associações cívicas, culturais até particulares, mesmo utilizando, de vez em quando, «uma cábula» para relembrar, pois o resto virá por acréscimo…

Vem aí de novo o Senhor Presidente da República, desta vez para visitar as ilhas e S. Miguel e de Santa Maria: um bom momento para pôr todos – micaelenses e marienses - a cantar o nosso Hino, como símbolo do «valor açoriano, pela paz à terra unida… até à vitória merecida»!

 

E, por que não?

É preciso é começar…