“A Marca Açores carece de uma grande fiscalização”

Ruben Correia A Marca Açores tem sido uma das grandes apostas da Região na certificação de produtos regionais, fazendo parte da estratégia do turismo na procura de produtos diferenciadores e certificados pela natureza, como afirma a Secretaria do Turismo. Mas há empresários que não estão satisfeitos com a vulgarização na atribuição da Marca, pedindo maior fiscalização. É o caso do jovem empresário Rúben Pacheco, proprietário do Restaurante O Botequim e do Azor Rock Café, conforme declarações ao “Diário dos Açores” nesta entrevista.

 

Enquanto proprietário de estabelecimentos de restauração preocupa-se em vender produtos com a marca Açores?

Claro que sim. Do balancete do ano 2016, posso afirmar que mais de 70% do produto que vendemos é dos Açores, o que não quer dizer que tenham obrigatoriamente de ter Marca Açores. 

Nem todos os produtos “donos” desta marca merecem representá-la e nem todos são representativos da boa qualidade açoriana. 

Desde o peixe (sempre fresco dos nossos mares), à carne (certificada e comprada directamente a pequenos talhos que garantem a frescura e origem da mesma), ao vinho ou até mesmo aos sumos e cerveja, aos licores e aguardentes, primamos por qualidade e temos a garantia que são de origem açoriana, em todo o processo. 

 

Quais os problemas que tem encontrado com estes produtos?

Há vários problemas em relação aos produtos da Marca Açores e, em geral, com produtos denominados açorianos. 

Há muita carne por aí vendida como carne dos Açores, que vem da Argentina ou do Brasil. Mas não é só na carne que se nota isso. No mundo dos licores, a situação é igual. 

Ainda há dias tive um casal estrangeiro no restaurante. Como é hábito, gosto de oferecer aos nossos turistas, no final das suas refeições, um licor dos Açores. 

Claro que trabalho com os melhores dos nossos licores (Ezequiel/Eduardo Ferreira). Questionando-os se gostariam de provar o Licor de Maracujá do Ezequiel (dos mais premiados), recusaram-se porque já tinham provado um licor dos Açores de maracujá que sabia a açúcar queimado e pouco a maracujá. 

Ora, garanti que a situação em relação a este licor não se iria repetir. Provaram e ficaram deliciados. 

E é normal que tenham ficado, pois temos do melhor maracujá que há no mundo. Custa-me muito que se ande a vender a marca Açores da forma mais barata possível. 

Pelo conhecimento que tenho, o processo de fabrico dos nossos licores (seguido - e bem - pela Fábrica Ezequiel, Eduardo Ferreira e também pela Cooperativa Celeiro da Terra) tem uma duração de dois anos. 

Como é possível que outros licores detentores da Marca Açores demorem apenas uma semana no seu fabrico? 

 

Os clientes, sobretudo turistas, pedem produtos açorianos?

Claro que sim. Os turistas, em particular, procuram sempre o que é local. Desde o queijo, à cerveja, ao peixe (que exigem - e bem - ser sempre fresco), à carne, ao vinho, licores, aguardentes, enfim. 

No meu restaurante, primo pelo que é local, mas sempre com muito cuidado em relação ao que estou a comprar e que depois irei vender. 

 

Temos condições para manter com a máxima qualidade os nossos produtos?

Condições temos, mas acredito que a Região não pode mais apostar numa monocultura, mas diversificar a sua produção, para que depois não tenhamos um final triste, como foi e é o fim das quotas leiteiras. 

Seria muito interessante fazer um cadastro, ou seja, um levantamento das zonas de produção por toda a Região, para que possamos direccionar a nossa produção nas zonas que estão mais vocacionadas, a nível ambiental, para tal. 

Temos vários exemplos disso ao longo da nossa história: o ananás, a laranja de D. João V que os ingleses muito gostavam, o próprio Verdelho do Pico que era procurado pelos Czar, que vinham da longínqua Rússia com este propósito, o chá, no Porto Formoso e Gorreana, ou mesmo o vinho branco da Vila Franca do Campo, que ganhou o primeiro prémio de um concurso internacional, visto que os sólidos ácidos da Vila propiciam uma boa produção para esta casta. 

Mais actual, a cana de açúcar, que na Ilha de São Miguel garante duas apanhas por ano (o que só acontece nas Ilhas Martinica), tem condições para sustentar um Rum de grande qualidade que em breve a Fábrica de Licores Eduardo Ferreira irá lançar. 

 

A Marca Açores deveria ser mais fiscalizada?

Muito mais. A Marca Açores carece de uma grande fiscalização. Os produtos merecedores desta marca, deveriam representar o melhor do melhor dos Açores. 

A atribuição de fundos para a MA parece ser feita de olhos vendados. Por exemplo, há muita gente a dizer por aí que há quem use mel de Espanha dizendo que é dos Açores, beneficiando com isso. Todas estas situações deveriam de ser publicamente denunciadas e estes produtos retirados na hora do mercado.

Quem infringisse estas regras não poderia voltar a ter condições para usar a Marca Açores nos seus produtos. 

Quem fala dos licores, fala de todos os outros produtos que, pela via mais barata e fraudulenta, usam os apoios para seu próprio enriquecimento e não para o enriquecimento do seu produto, dignificando os Açores.

 

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