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Por: João Freitas
Começo por vos propor uma reflexão: O que significa o cinema para si? Que lugar ocupa ou ocupou na sua vida? A cidade de Ponta Delgada espelha a tristeza das várias salas de cinema que se tem perdido nos últimos anos. Todas elas transformadas em anti-cultura, parque de estacionamento, Igreja Universal do Reino de Deus, edifício de habitação colectiva, etc. A televisão ocupa um lugar privilegiado entre os mais novos. Com três anos de idade, os mais pequenos já viram mais horas de TV, do que eu em toda a minha vida vi cinema. Quem não se lembra do Cine Vitória, Cine São Pedro, Cine Solar, Teatro Micaelense e Coliseu Micaelense. O intervalo sinónimo de convívio. Falava-se de tudo e muito raramente do filme a que se estava assistindo. Tenho saudades daquele tempo em que para assistir a uma sessão dupla de cinema custava 6 escudos (hoje o equivalente a 0,03 euros). Para mim, no inverno era obrigatório uma ou duas idas semanais ao Cine Vitória, de verão o Cine Solar, ao ar livre. Há relativamente pouco tempo encontrei-me na porta de um espaço comercial com o senhor Mendonça. Recordamos as sessões duplas e triplas, os grandes sucessos, as salas cheias. O ambiente harmonioso e de amizade que se vivia nos espaços exteriores ou no Bar, o respeito durante a sessão. Não éramos importunados pelo sugar do sumo ou do trincar das pipocas, ou das galhofas. Se apareciam alguns mais atrevidos, a lanterna acendia-se e percorria as filas silenciosamente, impondo respeito. Os filmes portugueses com grande sucesso envolviam muitas vezes o actor e cantor Tony de Matos, que abrilhantava pessoalmente o público, cantando no intervalo.
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