“Os jornais tinham um papel informativo, pedagógico e cultural muito importante”

AASusana Serpa Silva - historiadora

Susana Serpa Silva, historiadora

 

“Mais fechada, mais atávica e mais isolada”. Seria assim a sociedade açoriana no século XIX, se não existissem jornais, segundo diz a docente universitária Susana Serpa Silva. A imprensa teve um “importantíssimo papel” no século XIX, enquanto fonte de informação, quando não havia outro meio de comunicação.

“Quer queiramos quer não, os jornais traziam muita informação e conhecimento sobre o que se passava cá dentro e lá fora e tinham um papel informativo, pedagógico e cultural muito importante”, frisa a historiadora açoriana, que conta com vários trabalhos de investigação dedicados à imprensa nos Açores. 

Em entrevista ao Diário dos Açores, Susana Serpa Silva destaca o século XIX como o “grande século da imprensa”, apontando o Liberalismo como o verdadeiro “impulsionador” dos jornais em Portugal e nos Açores. 

“No caso concreto dos Açores, foi precisamente no período das lutas liberais, com a vinda da regência liberal para a ilha Terceira, que se introduziu a primeira máquina tipográfica, que serviu para publicar as primeiras crónicas, a Crónica da Terceira, a Crónica dos Açores, a Crónica Constitucional de Angra, todas da primeira metade da década de 30 do século XIX”, explica. 

Segundo recorda, as crónicas “tinham por finalidade publicar documentação oficial, legislação produzida pelo ministério liberal que ficou na ilha Terceira e que depois motivou a campanha dos Açores e, finalmente, a Guerra Civil, de 1832-34, entre D. Pedro e D. Miguel”. 

A partir desta altura, a imprensa nos Açores começou a ganhar força, sobretudo nas principais cidades do arquipélago, Angra, Ponta Delgada e Horta, e foram surgindo alguns títulos e jornais numa imprensa “que foi fundamental, porque não só informava como dava voz às preocupações e aos interesses dos açorianos”, frisa a historiadora.

Já na segunda metade do século XIX, houve um crescimento “exponencial” do número de jornais por todas as ilhas, com excepção do Corvo. Apesar de existirem muitas publicações, grande parte da população não sabia ler, pelo que eram as pessoas da classe média-alta que tinham acesso à informação. 

“É muito interessante esta quantidade de jornais se pensarmos que estamos a falar de ilhas, isoladas, periféricas e onde a maior parte da população era analfabeta”, aponta a docente universitária. 

“A sociedade era marcada por uma forte atavismo, por uma forte rusticidade, a maior parte das pessoas vivia uma vida muito ligada ao mundo rural e, por isso os jornais estavam muito ligados a um grupo social de figuras influentes do ponto de vista político, social e económico, a que se foram juntando elementos de uma emergente classe média, de um certo funcionalismo público, que demonstrava interesses numa cidadania activa e de defesa das ilhas e das ambições  pessoais”, explica.

“Tudo isto impulsionou um grande número de jornais. Desde 1830 e até finais da primeira República, registamos o surgimento de aproximadamente 600 jornais nos Açores, o que é verdadeiramente notável”, destaca a historiadora.

É perante esta realidade social que surge o Diário dos Açores, em 1870, já configurando as origens do jornalismo moderno. “Ou seja, numa época em que a publicidade se torna uma realidade na imprensa. E isto foi fundamental, porque a publicidade era uma fonte de receita para os jornais, quando as assinaturas eram manifestamente insuficientes para a sobrevivência do jornal”, salienta a docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade dos Açores. 

Susana Serpa Silva recorda que eram “inúmeras” as dificuldades com que se debatiam os jornais, daí que muitos tenham tido uma vigência muito curta. “Duravam um ou dois anos e depois acabavam por desaparecer por falta de recursos. A sobrevivência era uma luta constante”.

De acordo com a historiadora, “durante a primeira República há muitos jornais que desaparecem, porque acrescem as dificuldades devido à I Guerra Mundial. Escasseia o papel, faltam as tintas... Os recursos eram mesmo mínimos, daí que a publicidade tenha sido de facto um recurso importantíssimo”. 

É então numa altura de “um certo apaziguamento do aparecimento da publicidade” que surge o Diário dos Açores. E surge como jornal diário: um “aspecto interessante, porque a maioria dos jornais era semanal”. 

“O Diário vem com outro espírito e nasce precisamente com o espírito informativo. Em finais do século XIX, o Diário tinha já muitos correspondentes de fora e contactos com agências noticiosas, precisamente para informar de uma forma ampla e alargada todos os seus leitores”, relata a investigadora. 

Ao longo do século XX, relata, o Diário “manteve sempre este perfil, acrescido naturalmente dos artigos de opinião e de todo o debate de questões e interesses locais”. 

“Faz parte da imprensa regional, mas de uma imprensa generalista e que conseguiu, de facto, uma notável longevidade. Está de parabéns porque é de facto uma empresa extraordinária, por ter conseguido, em pequenas ilhas, sobreviver, lutando contra inúmeras dificuldades”, destaca Susana Serpa Silva.

A título de curiosidade, a historiadora conta como o Diário dos Açores tinha a preocupação de informar e cultivar os açorianos sobre o que se passava no mundo: “Há muito pouco tempo, aquando da celebração da chegada dos norte-americanos à Lua, tive a oportunidade de fazer um trabalho com uma outra colega, e o Diário foi uma das nossas fontes privilegiadas, porque é extraordinária a forma como o jornal cobriu todos estes acontecimentos e a chegada à Lua, fazendo mesmo manchete, com uma cobertura mesmo intensa, ilustrada, com inúmeras imagens. Isto mostra de facto toda esta preocupação em informar e cultivar os açorianos”.

Ao longo do século XIX e parte do século XX, face ao importante papel que tinha enquanto “fonte de informação e de divulgação nas ilhas”, assistiu-se ao surgimento de uma “grande diversidade de tipologias de jornais”.

“Havia os jornais generalistas, mas também havia os jornais de filiação política, jornais que eram órgãos de determinadas associações e sociedades, como é o exemplo do Agricultor Micaelense, que era um órgão da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense. A República Federal foi o órgão do Centro Republicano Federal de Ponta Delgada. Havia jornais académicos, humorísticos, de natureza religiosa, literários... Havia portanto uma grande diversidade e eles é que eram a nossa fonte de informação. Não havia outro meio de comunicação”, explica a investigadora.

Era uma quantidade e diversidade de jornais “impressionante” nos Açores, quando apenas 22 mil habitantes eram alfabetizados, numa realidade de 120 mil habitantes.

“É uma percentagem muito pequena da população. Isto ainda torna mais significativo e notável esta abundante imprensa que traduz, de facto, um espírito empreendedor, de cidadania e de luta por determinadas causas e ideias”, destaca a historiadora, salientando o empenhamento de quem fazia os jornais, “que podemos considerar privilegiados a vários níveis da nossa sociedade, mas que não se limitaram aos seus negócios e interesses pessoais. Tiveram um papel muito activo a nível de cidadania, a nível cultural, social.”

Susana Serpa Silva recorda ainda a “vida cultural intensa” da sociedade açoriana, que vinha retratada no jornal. “É interessante ver que ao longo de toda segunda metade do século XIX, apesar das características do nosso arquipélago e das nossas ilhas, acabámos por ter uma vida cultural muito intensa, sobretudo nas cidades”. 

“Além de uma vida cultural própria dos nossos costumes, inerente às nossas tradições, havia os espectáculos teatrais, os concertos, toda uma panóplia de iniciativas, de formação de sociedades culturais e recreativas, que mostra bem o dinamismo da sociedade, que também beneficiava das viagens transatlânticas, dos navios que faziam escala aqui nas nossas ilhas, no porto de Ponta Delgada, e que por vezes traziam a bordo figuras do mundo da cultura, do canto, das artes, e que acabavam por colaborar com as nossas entidades oficiais, com as nossas elites sociais, dando espectáculos, promovendo concertos, espectáculos de canto lírico, o que era muito enriquecedor”. 

Segundo conta, as pessoas “de um certo nível social estariam sempre ávidas deste tipo de acontecimentos e, no meio disto tudo está a imprensa que também incentivava e divulgava estes espectáculos”.

 

“Uma fonte riquíssima 

para a construção histórica”

 

A imprensa debatia nas suas páginas as grandes preocupações sociais. “Teve de facto um papel crucial ao dar voz às ilhas, muitas vezes nas suas reivindicações que eram esquecidas e que eram postas na ordem do dia”. Temas como “questões em torno da emigração, da emigração clandestina, questões políticas, questões em torno das infraestruturas ou falta delas, questões económicas…”, indica a historiadora.

Tudo isto faz com que a imprensa seja hoje uma fonte para o estudo da História: “É uma fonte importantíssima e riquíssima de investigação, porque nas páginas de um jornal estão plasmadas as grandes preocupações e temas da época. Ao folhearmos um jornal, não só  recolhemos imensa informação, como percebemos o que era a sociedade naquele período. A imprensa espelha o mundo que a rodeia”, sublinha Susana Serpa Silva.

“Hoje, numa era da globalização, vai muito mais além do círculo que a rodeia, mas no século XIX e durante boa parte do século XX, não há dúvida que a imprensa espelhou o que era a sociedade açoriana da época e no caso do Diário dos Açores, espelhava a sociedade de São Miguel. Com os necessários cuidados e com a necessária metodologia, de rigor e de análise que os historiadores devem ter sempre em conta, a imprensa também é uma fonte riquíssima para a construção histórica”, realça.

 

O que se lia no Diário 

do século XIX 

 

E o que se lia exactamente no Diário dos Açores há 150 anos? “Encontrava-se aquele tipo de notícia de cariz social que hoje encontramos nas revistas cor-de-rosa e não numa imprensa de jornalismo dito sério, que se preocupa sobretudo com a informação dos seus leitores”, começa por responder Susana Serpa Silva.

“Via-se muitas vezes anedotas, que vinham desanuviar a leitura, eram muito habituais as curiosidades sobre casos exóticos que tinham ocorrido em paragens longínquas, na China, na Rússia... E havia também aquelas notícias de beneficência, com os nomes das pessoas que tinham doado dinheiro para uma determinada instituição ou festividade. Noticiava-se ainda quem tinha ido de viagem, quem se tinha casado. Era este tipo de crónica social que hoje em dia encontramos nas revistas ditas cor-de-rosa, aparecia na imprensa do século XIX”, relata a investigadora. 

A par disto, surgiam também os editoriais “de grande seriedade e rigor jornalístico, informativo, e também muitos artigos de questões prementes”. Emigração, falta de abastecimento de cereais, problemas políticos, eram alguns destes assuntos.

 

Os leitores 

 

Apesar de a maioria das pessoas que liam os jornais serem de classes sociais mais elevadas, as informações chegavam também aos meios mais rurais, afastados dos centros urbanos.

“Muitas vezes, nas vilas ou fora dos centros urbanos de maior dimensão, as pessoas reuniam-se e havia alguém que lia o jornal para aqueles que não eram letrados, mas que tinham interesse em saber o que é que se passava”. E assim chegavam as notícias a uma população que “era esmagadoramente analfabeta”, conta a docente universitária.

 

Jornais tinham mais prestígio

 

Em declarações ao nosso jornal, Susana Serpa Silva salienta que na altura em que surge o Diário dos Açores, a imprensa tinha mais prestígio, pois não tinham que lutar com outras formas de concorrência que existem nos nossos dias. 

“De facto, naquela altura os jornais tinham um grande prestígio entre os grupos sociais mais influentes. Daí que muitas associações e sociedades tivessem o seu próprio jornal, o seu órgão noticioso informativo, e até às vezes doutrinário”, explicita, dando o exemplo do uso dado pelos republicanos à imprensa. 

“No caso  dos republicanos a imprensa era fundamental, porque quando começa a surgir toda uma geração de republicanos fundadores e doutrinadores, sabiam que havia um grande desconhecimento no país - que fora sempre monárquico - sobre o que era a república. Por isso socorreram-se muito dos comícios e da imprensa para doutrinar”, relata a historiadora.

Este papel político dos jornais justificava o “grande empenhamento dos seus proprietários, dos seus directores para garantir ao máximo a sua sobrevivência, para garantir as assinaturas, para garantir a sua circulação”. 

 

O problema da subsistência 

dos jornais

 

Já no século XIX, considerado o “grande século da imprensa”, os jornais lidavam com graves problemas para manter a sua circulação, tal como ainda acontece nos dias de hoje.

“Ao longo, dos tempos, sempre foi uma luta garantir a subsistência, a sobrevivência dos jornais, lutar com a falta de meios. Muitas vezes os jornais tinham uma vida errante. Andavam de instalação em instalação, mudavam constantemente as suas tipografias e a sua redacção para outros edifícios, por problemas com senhorias, com rendas... Portanto as dificuldades foram uma constante”, explica a investigadora.

Susana Serpa Silva diz mesmo que a imprensa vivia “da carolice dos seus mentores”.  “Como diz Rui Ramos, havia no século XIX e início do século XX um verdadeiro apostolado jornalístico. As pessoas viviam o jornalismo como uma missão e isso realmente fazia com que fosse uma actividade de luta constante, de entrega e de muita criatividade, para realmente fazer sobreviver um jornal”, refere.

A historiadora aponta estes “mentores” como  “dignos de muita admiração”. “Os nossos pioneiros, os nossos fundadores de jornal, como o Manuel Augusto Tavares de Resende, são pessoas dignas da nossa admiração e cuja memória deve ser sempre perpetuada, como um exemplo de luta, de resistência, de cidadania, de empreendedorismo, e de luta pela informação, pelo direito à informação, e que se justifica tanto nestas ilhas isoladas”, destaca.

E vai ainda mais longe: “Se não fossem os jornais, em épocas mais recuadas o que é que restaria? Pouco mais. Uma ou outra revista que apareceram na altura, mas cuja circulação era muito limitada”.

“Sem jornais, a sociedade seria ainda mais fechada, mais atávica e mais isolada, porque quer queiramos quer não, os jornais traziam muita informação e conhecimento sobre o que se passava cá dentro e lá fora. Tinham um papel informativo, pedagógico e cultural muito importante”, conclui a historiadora.