“Actualmente, a Rede de Economia Solidária dos Açores emprega mais de 1.400 pessoas e movimenta cerca de 70M€ anualmente”

AACélia pereiraActualmente com 27 organizações cooperadoras dispersas por 6 das 9 ilhas dos Açores, a Cooperativa Regional de Economia Solidária (CRESAÇOR) está a assinalar este ano 20 anos desde a sua fundação. Em duas décadas, a organização apoiou a criação de mais de 420 empresas e micronegócios, que originaram mais de 600 postos de trabalho. Ao Diário dos Açores, a Presidente do Conselho de Administração, Célia Pereira, explica como a instituição procurou “construir uma visão de mudança social que coloca o empreendedorismo e a inovação social ao serviço das pessoas”. Faz ainda um balanço dos projectos desenvolvidos e fala da necessidade de ser criado um  “instrumento de financiamento ao empreendedorismo social”.

 

Diário dos Açores - A CRESAÇOR está a comemorar este ano o seu 20.º aniversário. Que balanço pode fazer da atividade da cooperativa ao longo destas duas décadas? 

Célia Pereira - Avaliar o trabalho e impacto da CRESAÇOR passa, naturalmente, por reflectir os resultados alcançados com as inúmeras iniciativas e projectos desenvolvidos nestes 20 anos de história e actividade enquanto Rede de Economia Solidária dos Açores. A história da CRESAÇOR iniciou-se, no final da década de noventa, com a sua incubação no âmbito do Projecto de Luta Contra a Pobreza e pela criação de um programa para o desenvolvimento das empresas de inserção socioprofissional dos Açores – O Projecto IDEIA. Em Abril do ano 2000 foi formalmente constituída por cerca de oito organizações sem fins lucrativos com Centros de Economia Solidária e empresas de inserção social. Desde então cresceu e consolidou a sua acção, quer pela diversidade de domínios e áreas em que intervém, quer enquanto rede. 

Nestes 20 anos, procurou construir uma visão de mudança social que coloca o empreendedorismo e a inovação social ao serviço das pessoas, contribuindo de forma indelével para a coesão social e territorial da Região, insular, ultraperiférica e diversa na sua identidade. Representa a Rede de Economia Solidária da Região, norteando-se por princípios e valores que são os de uma economia solidária que se propõe responder aos desafios do século XXI como o desemprego, a pobreza e exclusão social, a multiculturalidade e a coesão territorial. Através da articulação das actividades económicas, com criação efectiva de emprego para os grupos mais vulneráveis, da coesão social, do respeito pelo meio ambiente, da valorização da diversidade cultural e de uma boa governança para uma gestão eficiente, em que o território é assumido como um todo, potenciando o desenvolvimento local.

 

Como era falar de economia solidária nos Açores há 20 anos, em comparação com os dias de hoje? O conceito foi alcançando maior importância e dinâmica ao longo do tempo, na região?

CP - O movimento da economia solidária e do desenvolvimento local, na Região, possui uma história com cerca de 25 anos, tendo como organizações precursoras a Kairós e a Aurora Social seguidas dos Centros de Economia Solidária, integrados em Projectos de Luta Contra a Pobreza e dinamizados por diversas IPSS’s em parceria com o Governo Regional dos Açores, nomeadamente o Instituto de Ação Social e a Direcção Regional de Emprego, como forma de luta contra a pobreza e a exclusão social. 

Estas organizações da sociedade civil desenvolveram iniciativas que, entre o cruzamento de problemas e oportunidades que marcaram as décadas de 80 e 90, convertem a sua lógica assistencialista tradicional numa outra de formação e reforço de competências de pessoas em risco de exclusão social ao mesmo tempo que criam actividades económicas, com vista sobretudo à criação de emprego para estes grupos mais desfavorecidos e de condições de sustentabilidade, nomeadamente económica, para estas organizações.

Desde então, constituíram-se como agentes de desenvolvimento, contribuindo de forma preponderante para a construção de respostas aos problemas e necessidades locais alavancando oportunidades, potenciando o colmatar das dificuldades dos territórios e afirmando-se como pilar no apoio à criação de emprego a nível local. Actualmente, a Rede de Economia Solidária dos Açores emprega mais de 1.400 pessoas e movimenta cerca de 70 milhões de euros anualmente. 

 

Quais as áreas de intervenção e instituições que fazem, atualmente, parte da CRESAÇOR? 

Contamos actualmente com 27 organizações cooperadoras dispersas por 6 das 9 ilhas dos Açores. 

Com uma estratégia assente em três grandes domínios, a democracia económica, a justiça social e a valorização das pessoas, a CRESAÇOR, além de procurar fomentar o cooperativismo e o trabalho em rede entre as organizações que a integram, criou e desenvolveu diversas áreas de trabalho e de intervenção.

Desta forma, a cooperativa dispõe de 10 equipas multidisciplinares e descentralizadas que, de acordo com a sua missão e objecto social, colaboram in loco com os cooperadores e públicos em risco ao nível da consultoria e assessoria técnica, nomeadamente: Desenvolvimento de iniciativas de promoção da Economia Solidária e Desenvolvimento Local; Acompanhamento e apoio a migrantes em situação de grave carência económica e social; Acompanhamento territorializado dos agregados familiares com necessidades habitacionais; Aconselhamento a cidadãos e cidadãs em situação de endividamento e/ou sobre?-?endividamento; Apoio ao empreendedorismo social e microcrédito; Concepção de estudos de mercado, de estudos de viabilidade económica e de candidaturas a projectos e sistemas de incentivos regionais, nacionais e comunitários; Criação de imagem; Organização de eventos como a realização de feiras, colóquios e seminários; Realização de acções de formação; Qualidade, higiene e segurança alimentar; Higiene e segurança no trabalho; Desenvolvimento de iniciativas de turismo inclusivo, cultural e de turismo social e solidário, e agricultura biológica.

 

Os primeiros passos da instituição foram dados no âmbito da luta contra a pobreza e a exclusão social. Um assunto que, mais de 20 anos depois, continua a ser uma grande preocupação nos Açores. Considera que o papel das iniciativas de economia solidária tornou-se fundamental nesta luta?  

CP - A economia solidária tem tido a capacidade de crescer em contraciclo, o que significa que lideramos um modelo económico resiliente, competitivo (cooperando para competir) e de interesse comum. Um modelo que não se constitui e organiza na procura do crescimento económico, mas sim, do desenvolvimento integrado, inclusivo e sustentável, em que o combate à pobreza se faz sobretudo com a aposta na formação e capacitação de pessoas em risco por forma a potenciar o seu acesso ao mercado de trabalho. Se somos mais resilientes e capazes de crescer economicamente em contraciclo, deveremos ser também uma referência central das políticas de desenvolvimento de âmbito europeu, nacional e regional. 

A economia solidária e o desenvolvimento local reforçam o papel da sociedade civil no desenvolvimento do seu território, através da promoção de uma cidadania activa e participativa, da igualdade de género, oportunidades e de tratamento, privilegiando a solidariedade horizontal e emancipatória. Um trabalho que privilegia lógicas de pensar, planear actuar e avaliar a partir do local para o global. 

 

Sente que permitiram a mudança na vida de muitos açorianos, com os projetos desenvolvidos nas várias áreas de intervenção? 

CP - Esse sentimento advém sobretudo do testemunho de todos aqueles e aquelas que têm como referencia o apoio dos nossos profissionais e equipas para vencerem adversidades e concretizarem sonhos, nomeadamente o acesso ao emprego e ao trabalho. 

 

É possível contabilizar o número de pessoas apoiadas pela CRESAÇOR nestes 20 anos? E quantas as empresas e postos de trabalho ajudou a criar?

CP - Apoiamos a criação de mais de 420 empresas e micronegócios que originaram mais de 600 postos de trabalho; formamos e capacitamos cerca de 1.427 pessoas e participaram nas nossas acções de sensibilização, workshops e seminários mais de 11.500 pessoas em toda a região; doamos cerca de 125 mil refeições; realizamos mais de 3.500 visitas guiadas; estabelecemos cerca de 175 parcerias; realizamos mais de 750 análises microbiológicas e cerca de 180 auditorias de qualidade; realizamos cerca de 300 eventos; integramos cerca de 30 pessoas em programas ocupacionais; guiamos e animamos em viagens de turismo e lazer, pelas 9 ilhas dos Açores, mais de 4.900 turistas sénior e proporcionamos experiências de animação turística a mais de 6 mil utentes, nomeadamente crianças, jovens, sénior e pessoas com necessidades especiais, de organizações de S. Miguel…

 

Entre os vários projectos desenvolvidos nestes 20 anos, qual o que destacaria pelo maior sucesso obtido?

CP - O que é o sucesso? São muitos os projetos que marcam a história da CRESAÇOR e que tiveram um papel decisivo na afirmação da diversidade da sua intervenção e ação. Todos eles nasceram de diagnósticos rigorosos e com o propósito de, em rede e cooperação, desenvolver respostas adequadas às necessidades a que urgia atender. Alguns deles incubaram as atuais equipas e áreas de intervenção. A maioria foram desafiantes e verdadeiros testes à capacidade de empreender e inovar e, em todos eles, houve momentos menos bons, de frustração até, mas sobretudo de aprendizagem e superação em que, tão determinante como o rigor e dedicação dos nossos profissionais e equipas, foi a sua capacidade de ouvir e compreender as pessoas e organizações, de transformar problemas em oportunidades e de não desesperar face às adversidades e obstáculos. O nosso maior projecto e sucesso, nestes 20 anos de actividade, foi conseguir fazer crescer e consolidar a Rede de Economia Solidária dos Açores, referência a nível nacional e internacional. E para o efeito contribuíram projectos como o Açores+ pelo trabalho de proximidade com os cooperadores e afirmação do Selo de origem de economia solidária CORES; o Azores for All pela defesa do Turismo Acessível e Inclusivo na Região; a Quinta do Norte pelo desenvolvimento de uma quinta comunitária e pedagógica, com produção biológica certificada; o Sertã Solidária que, através da recolha de doações de excedentes e géneros alimentares e com produtos hortícolas da Quinta do Norte, apoia pessoas e famílias com grave carência alimentar; a Semana dos Direitos Humanos que, assinalou os 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos, e nos recordou como é recente e frágil a garantia de direitos que damos como certos e adquiridos; a Incubaçor que veio completar os domínios de apoio à criação de micronegócios desde a ideia de negócio à implementação da empresa.

 

Tornar os projectos de economia solidária sustentáveis é uma preocupação? 

CP - Na emergência e ADN da economia solidária encontram-se princípios e valores alinhados com o conceito de Desenvolvimento Sustentável pelo que a sustentabilidade faz naturalmente parte da nossa agenda. Na CRESAÇOR procuramos incorporar na nossa estratégia e plano de acção uma articulação efectiva com os 17 ODS. Acreditamos que é essencial a coexistência na nossa Região de espaços privilegiados de concertação para a conjugação de interesses que garantam o reforço do desenvolvimento local e da economia solidária enquanto pilar de desenvolvimento sustentável e da concretização dos ODS. Consideramos que na cooperação temos todos a ganhar, e que a garantia do estabelecimento de relações de proximidade, de participação e reforço da ação das várias entidades públicas e privadas, criará as condições adequadas para que o Desenvolvimento Sustentável se afirme na defesa do bem comum e acima do interesse parcelar. 

 

Que desafios e dificuldades enfrenta, atualmente, a CRESAÇOR?

CP - Ambicionamos contribuir para conseguir uma vida de bem-estar para todos, com dignidade, justiça e equidade. É este o grande desafio e missão da CRESAÇOR e da Rede de Economia Solidária dos Açores.

 

Não poderíamos de deixar de falar na actual situação de pandemia que o mundo atravessa. Uma crise não anunciada que já se está a reflectir num aumento das dificuldades das empresas e das famílias açorianas. De que forma o sector da economia solidária será afetado com esta crise?

CP- O confinamento e distanciamento social a que a pandemia SARS CoV-2 e os riscos que lhe estão associados nos votaram traduzem-se numa crise económica sem precedentes e cujas respostas passam pelo ser solidário, criativo e disruptivo. As nossas empresas de inserção e de economia solidária estão também a sentir os efeitos desta crise mas, confiamos que a nossa capacidade de resiliência e de trabalho em cooperação farão, mais uma vez, a diferença. O que mais nos preocupa e move é atender e acudir às pessoas e comunidades mais afectadas e em risco, por isso estamos também na linha da frente, nas mais diversas áreas de apoio à emergência social e económica. 

 

Quanto ao futuro, o que há ainda a fazer nos Açores no campo da economia solidária? Novos projetos a concretizar?

CP - A CRESAÇOR pretende continuar firme, empenhada na sua missão, ao serviço dos seus cooperadores, das pessoas e da Região e por isso defende a criação de medidas de apoio específicas a modelos económicos alternativos, como a economia solidária e a economia circular, geradores de actividades económicas mais sustentáveis e resilientes a crises, que dinamizam a economia local dos territórios onde actuam, dinamizando circuitos curtos de produção/consumo em que se valoriza a produção e consumo de produtos locais/regionais. Gostaríamos, igualmente, que fosse criado um instrumento de financiamento ao empreendedorismo social para todo o território nacional e em particular para a Região Autónoma dos Açores, para dar resposta às necessidades de financiamento das organizações e agentes da economia social e solidária, com enfoque em associações, cooperativas, misericórdias e fundações. E que tenha em conta não só as necessidades das empresas sociais em termos de financiamento, mas também em termos de capacitação, de coaching e de prontidão para investimento.