Três açorianos, três destinos diferentes. Tércio Sousa, Tiago Santos e Dário Miguel fizeram as malas, despediram-se dos mais próximos e lutam agora naquela que todos apelidam de “aventura”, lá fora.
Moçambique, Espanha e Brasil, são os países aos quais Tércio, Tiago e Dário, respectivamente, escolheram ou tiveram oportunidade para encontrar um trabalho diferente, quem sabe, um destino melhor. As razões que levam estes e tantos outros jovens a deixar os Açores são normalmente motivadas por questões económicas ou pelo espírito de aventura propício da sua juventude e leva a que estes muitas das vezes se transformem em histórias e com carreiras de sucesso. Tércio Sousa, natural de Santa Cruz das Flores, 26 anos, viajou para Moçambique há quatro meses e ocupa actualmente a direcção de logística de uma empresa de construção civil, Castanheira e Soares, não sabe ao certo quanto tempo vai ficar no continente africano, mas considera o seu trabalho cativante e “não é o mesmo de trabalhar em Portugal/Açores”, afirma. “Conhecer África, a verdadeira África, onde posso coabitar com os locais, nos mais diversos sítios e as questões monetárias”, tornam a sua presença em Moçambique numa experiência de vida fantástica e que o florentino aconselha a qualquer pessoa que tenha algum espírito de aventura. Tiago Santos, natural de Ponta Delgada, São Miguel, viajou aos 23 anos para Valência, em Espanha, para ingressar no ramo da informática. Técnico de instalação e manutenção de Redes Informáticas de uma empresa chamada “Proseleccion”, o micaelense planeia ficar pelo menos mais 6 meses na vizinha Ibérica porque se adaptou bem e gosta do modo de vida a que se habituou. A possibilidade de aprender coisas novas e o seu grande interesse pela língua, o espanhol, aliado a motivos pessoais motivaram a sua saída dos Açores e, garante o próprio, voltaria a fazer o mesmo se surgisse novamente a proposta laboral. “Um grande apoio da minha família, e amigos em especial, foi essencial e voltaria a tomar a mesma decisão de sair dos Açores se fosse hoje”, referiu Tiago. Dário Miguel, 31 anos, natural da Terra Chã na Terceira, está há 9 meses em Cuiába, no Estado do Mato Grosso, no Brasil, e trabalha no ramo da hotelaria no hotel “Deville”. A falta de trabalho nos Açores, e a esposa, que também se encontra no Brasil, levaram Dário a viajar para a América do Sul onde “temos oportunidade de crescer profissionalmente”, salientou.
Ambições
A nível profissional, Tércio está empenhado em ajudar a empresa onde trabalha a referenciar-se no mercado. “É difícil, mas são os objectivos complicados que nos fazem trabalhar mais e melhor”, sublinhou. “A nível pessoal, sinceramente não posso responder a isso, vou deixando a vida decidir. Por enquanto, não penso em regressar a Portugal”, salienta o jovem das Flores que agora tem que acordar às 4:30 da manhã para iniciar um dia trabalho. Tiago ambiciona viver a vida a cada momento. “Nunca se sabe o que o futuro nos reserva, mas gostava de continuar a trabalhar na minha área”, refere. A falta dos amigos e da família são os principais condicionalismos de estar tão longe de casa. Já Dário que mora numa cidade com muito movimento, muita poluição e com “trânsito muito desorganizado”, diz, afirma que se vive praticamente com a mesma cultura, mudando os hábitos alimentares e o vestuário que agora são mais “leves”. A picanha e o arroz com feijão substituiu a alcatra, à moda terceirense, e até o vocabulário teve que sofrer algumas alterações... “saudades da família que ficou nos Açores e das gentes das nossas ilhas, sem falar da beleza natural”, são as coisas que mais relembra.
Vivências
Tomar café a seguir ao jantar, “algo banal em Portugal” refere Tércio, é um luxo em África. São pequenos detalhes como este que mostram a diferença e a variedade cultural que os continentes intercalam. A RTP-África é aquilo que liga Tércio a Portugal, mas iniciativas por parte da comunidade portuguesa não são frequentes. Tiago refere que o português não se fala nada em Espanha pelo que, não fosse o seu interesse pelo espanhol, estaria agora em “maus lençóis”. “O sonho é correr e conhecer o mundo todo e quem sabe depois de esta grande experiência não seja possível”, afirma Tiago Santos. Dário Miguel traz uma curiosidade às nossas questões. Segundo o terceirense falar “do jeito como se fala na Terceira... (risos) brasileiro não entende”. O vocabulário teve mesmo que sofrer algumas alterações e nem a língua de Camões parece ser mesmo suficiente para bom entendedor.
O futuro
A Pérola do Índico, Moçambique, é a casa de Tércio Sousa. “Viajar” por cidades e províncias, contactar directamente com populações, chamadas do “Terceiro Mundo”, e vivenciar de perto situações de miséria e desenvolvimento simultâneo são ocorrências diárias e que acrescentam história ao caminho e percurso deste florentino. A falta da presença dos amigos e família nunca pode ser colmatada e qualquer um destes jovens açorianos vai relembrar a sua terra mais que ninguém. “O facto de acordar sempre com uma temperatura apetecível, com milhares de quilómetros de praia, uma gastronomia fabulosa, as melhores frutas que já tive o prazer de comer, e um povo amistoso”, são razões que, para Tércio, atenuam a distância e o que ficou para trás. “Como se diz cá: Moçambique quem te conhece, não te esquece jamais”, relembra Tércio Sousa. Tiago Santos acostumou-se às tradições de Espanha e da sua língua. O facto de a Europa estar cada vez mais próxima reduz uma distância, que afinal, não é tão grande para quem é ilhéu e sabe o que custa sair e voltar aos Açores. O seu contrato, o seu trabalho que enaltece e quer ver reconhecido podem ser a rampa para um mundo de sonhos e concretizações pessoais e profissionais. São Miguel e o mundo esperam-no. Dário Miguel saiu da Terceira, deixou para trás a sua família, os seus amigos, as suas gentes e costumes. Agora, como referiu, tem oportunidade de crescer e enfrentar novos desafios num mercado promissor em terras americanas. Quando se fala num português nos “quatro cantos do mundo”, podemos acrescentar um açoriano, um ilhéu, um desejo de poder ir e conquistar um sonho ou simplesmente aventurar-se numa nova etapa. O Tércio, o Tiago e o Dário são apenas três exemplos, três açorianos, três destinos diferentes.
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