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Até no Futebol, a Alemanha domina

A Alemanha sofre duma certa hostilidade, principalmente por parte dos povos dos países do sul da UE, porque,  mais para leste, as afinidades histórico culturais (e mesmo geográficas) facilitam o ascendente e o poder que ela  tem dentro da UE. Que outro país, dos que compõem a UE, será capaz de exercer essa liderança? São muitos os portugueses que têm um “ódio de estimação” à Chanceler Angela Merkel e, obviamente, para com a Alemanha, porque a inveja, defeito de muita gente, alimenta esse sentimento de hostilidade e que a figura e a imagem austera, por vezes exuberante e arrogante da chanceler, também não facilita. Em muitos actos públicos, ela transmite a imagem dum exagerado nacionalismo e poder germânico, que  também não cria empatia, muitas vezes parecendo ser a “dona da UE”, provocando assim um certo “ódio” para com tudo que seja alemão.Mas o “poder alemão” advém  das virtudes da Alemanha ou dos defeitos dos outros?  A II grande guerra mundial eclodiu por culpa dela e derrotada e fortemente penalizada, “arregaçou as mangas” na reconstrução que se seguiu, e é hoje a poderosa e rica nação que todos sabemos. O modelo do “forte, fiável e duradouro” dos equipamentos e máquinas alemães, que duravam para toda a vida, em detrimento do belo e frágil, é, ainda hoje, um símbolo alemão. Até no desporto eles possuíam essa cultura, pelo que, por exemplo no futebol as equipas alemãs se assemelhavam a essas máquinas. Conseguiram muitas vitórias com esse modelo, embora,  ás vezes, essa “máquina” era derrotada por equipas com maiores atributos futebolísticos individuais. O modelo fazia parte da cultura do rigor e do empenho vigente na sociedade alemã, características que lhe permitiram reconstruir a nação a partir dos escombros e destroços provocados pela guerra, embora com a ajuda dos países vencedores (o Plano Marshall é um exemplo).
Por cá, o desporto em geral e o futebol em particular, vivia do “jogador de rua” que depois de descoberto ingressava nos “grandes” e actuava pela selecção nacional e das ex-colónias vinham também muitos craques (Peyroteo, Eusébio, Coluna, etc) . Mas as alterações sociológicas e políticas (independência das colónias) e a crescente urbanização citadina, secou essas fontes, pelo que os principais clubes começaram a contratar estrangeiros em massa. Até que a federação (FPF) entendeu que era urgente e necessário investir na formação de jovens jogadores e o resultado foi espectacular porque dessas fornadas (a “geração de ouro” duas vezes campeã mundial em Sub-20, com Carlos Queirós) surgiram vários jogadores de elevado nível que permitiram que a principal selecção fosse fazendo alguns brilharetes, fracassando mais pelos defeitos organizativos das estruturas federativas e das nossas genuínas mentalidades!
Na actualidade, o futebol de formação em Portugal vive cheio de equívocos, porque apesar das condições terem melhorado significativamente nos principais clubes, aos jogadores ali formados não são concedidas as mesmas oportunidades de crescimento futebolístico, porque esses mesmos clubes preferem recorrer a contratações massivas de jogadores estrangeiros de várias origens e, para justificar os  negócios, dão-lhes as oportunidades negadas aos jovens portugueses . Argumentam os treinadores e os dirigentes que não podem esperar que os jovens portugueses cresçam, mas contratam jovens estrangeiros a quem são dadas essas oportunidades. Esta é uma das muitas mentiras do futebol português e, aliado ao facto de sermos um país pequeno e com baixa cultura/prática desportiva, reflecte-se na qualidade da nossa selecção.
Curiosamente, a federação alemã (DFB), que nos criticou por “explorarmos” os jovens naquele período de ouro do nosso futebol de formação, argumentando que não deixávamos os novos jovens crescer, acabou por implementar uma verdadeira revolução no seu futebol, que, para já, culminou no título mundial, mas que começou a ser idealizado, há mais de dez anos, por causa dum hat-trick de Sérgio Conceição que atirou a selecção alemã para fora do Euro 2000, após uma campanha desastrosa, pelo que o insucesso levou os dirigentes da DFB a fazerem as coisas em que os alemães são dos melhores: diagnosticar, reflectir, planear e agir. O Programa de Promoção de Talento, foi assumido pela DFB, mas a articulação com os clubes das duas ligas foi crucial e estes foram obrigados a montar academias para a formação de jogadores, de modo a combater a tendência, cada vez mais crescente, de importação de jogadores estrangeiros, no início do milénio. A própria federação abriu vários centros de treino por todo o país, de modo a abranger praticamente todo o território alemão. Contudo, faltava uma componente decisiva: os jovens jogadores tinham que dar o salto para as equipas principais e os clubes deram voluntariamente aos talentos alemães a oportunidade de jogar na Bundesliga e deixaram de comprar estrelas estrangeiras umas atrás das outras. Não foi necessário esperar que a Alemanha se sagrasse campeã mundial para que o sucesso do seu plano de formação fosse notado, pelo que  são várias as federações que têm mostrado interesse em beber da experiência alemã.
Não é apenas o “modelo do futebol português”, que muitas vezes “embriaga” os nossos dirigentes e treinadores , que está errado e falido, porque, nesse aspecto, grandes países como o Brasil (o maior exportador de futebolistas), a Espanha, a Inglaterra, etc, cujos resultados se reflectiram neste mundial, seguiram caminhos semelhantes ao nosso, mas com muito mais dinheiro, com reflexos financeiros catastróficos, ao contrário dos clubes alemães, onde o rigor  financeiro é elevado e as autoridades fiscais actuam de modo a impedirem as situações de falências técnicas, o que não se passam em Portugal, Espanha, Itália, etc. Aqui e em Espanha, o endividamento dos clubes é assustador! Mas e por aquilo que a nossa selecção (não) fez no Brasil e estamos a ver neste início de época, as nossas equipas continuam e até aumentaram as contratações massivas de jogadores estrangeiros, em detrimento dos jovens portugueses, os nossos dirigentes dos clubes, da FPF e da Liga não querem aprender nada com o exemplo alemão. Se o problema não viesse já de longe, teríamos que voltar ao inicio desta crónica e dizer que também eles têm um  “ódío a tudo que é alemão”, mas o pior cego é aquele que não quer ver o óbvio e que, afinal, a equipa alemã nos mostrou e até nos castigou (4-0), tal como  também o fez a outras selecções, incluindo a equipa “do país futebol” (o Brasil), humilhando-a ali mesmo.
Em síntese, enquanto que na Alemanha, país rico, o futebol está na mesma linha da economia e assenta em modelos de gestão e de rigor, por cá, país pobre, os dirigentes do nosso  futebol agem como se fôssemos um país rico. Aliás, corroborados por muita gente, a quem eles convidam para  “as mordomias”, aquando dos jogos de futebol, chegam mesmo a vangloriar-se de que o futebol português é a actividade de maior sucesso além fronteiras e os nossos principais clubes (2 ou 3, porque o resto é paisagem) conseguem ombrear com os clubes dos países ricos! E os adeptos, embriagados pelos golos, não importa de que nacionalidade, até acreditam. Mas , “No futebol, o pior cego é aquele que só vê a bola.” e no futebol português há tanta “poeira” que chega mesmo a cegar muita gente . Que aquele “staff” de luxo da FPF seja suficientemente humilde e se desloquem à Alemanha e tragam de lá o modelo e o implementem em Portugal, porque aprender com o “bom que os outros fazem” é uma atitude de elevada inteligência e  humildade . Não só no futebol, mas também na política, na economia e em tudo na vida.

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