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O amor visitado… na cozinha

Porque é que as pessoas se acomodam naquilo que mais as aproxima da infelicidade? E porque que é que elas se acomodam com migalhas?
Falar de amor ou da falta dele é falar de fome. E quando falo de amor, não falo só de amor entre um homem e uma mulher, mulher e mulher, homem e homem. Falo de amor entre todas as outras pessoas, amor entre a humanidade, coisa que está cada vez mais ausente na ilusória ementa do quotidiano.
Veja bem: o sexo é servido em travessa. Ele entra nas nossas ruas e nas nossas casas todos os dias. Mesmo que não seja explícito ele está por detrás do ecrã da televisão, na internet, no trabalho ou na escola. É oferecido em painéis de publicidade na rua, ou na revista antes da consulta do dentista. Lado a lado com a publicidade de “fast food”. Não podemos nos iludir, o sexo é um prato delicioso, mas é isso mesmo, um “fast-food”. É como aquele hambúrguer ou aquela pizza que comemos na segunda-feira passada. A gente come, lambe os dedos, e pronto. Mas quem se esquece de um jantar de alcátara e um copo de vinho tinto de 1995 (20 anos)?
Amor é bacalhau de natas, ou lulas gratinadas ou um “filet mingon” ao molho madeira. Mas nesse mundo de micro-ondas, de comidas plásticas, de refeições que levam 15 minutos a ingerir, ele está ficando fora de moda.
O coração tem fome.
Paro na pastelaria da esquina, peço um café e abro o jornal que está na mesa ao lado: guerra, brigas, mortes e desgraça. Nas redes sociais, exibicionismo e lamúrias. Na rua, gente com o olhar vago e distante, outros passando os dedos rapidamente pelo “smartphone”. Ao mesmo tempo que outros, também famintos, mas que nada fazem para alterar este estado de coisas, insistem em campanhas de ‘mais amor por favor’, ‘abraços grátis’, ‘vida sem wi-fi’, etc. Fome de amor, aliás, muita gente diz que tem. Milhares de pessoas. Mas o que vocês andam escolhendo para encher o estômago?
Não sei. Mas sinto que continuam nos “fast-food” e por vezes em dietas forçadas. Não consigo entender qual é o problema, nem sou especialista na culinária da vida, mas acho que as pessoas precisam de se alimentar melhor. Os dias ficarão mais alegres, mais solarengos, a barriga mais cheia e o coração, esse pobrezinho, menos vazio.
Que fome que me está a dar.

Mas se o amor é este prato farto e a fome de amor é enorme, por que, afinal, tanta gente vive alimentando-se com migalhas?
Tal como naquele romance que lemos no ano passado, queremos a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida (creio que quem utilizou esta frase foi Cazuza, poeta brasileiro), queremos sempre todo o amor que tiver nessa vida. Essa fome de amar faz o coração clamar todos os dias que tem fome. Com tamanha austeridade, o coitado (coração) sofre nesse mundo de sabores amargos escondidos em frutas que parecem doces. No meio de tanta fome, alguém oferece migalhas e pegamos, desta vez, só um pouquinho do sentimento no prato que está a ser oferecido. Umas migalhas adormecidas no chão.
Elas não matam a fome. E é bem pior, a gente sonha e sente o cheiro de comida farta, acha que pode ter mais e mais, exige isso, quer se alimentar, quer ser farto, quer se encher de amor até transbordar, mas isso não acontece. E de quem é a culpa da frustração que vem depois? A fome tem destas coisas.
Ninguém mata a sede com um pingo de água, ninguém sobrevive com um pingo de amor, mas eu vejo tanto por aí quem tente, insiste em tirar mais dessa fonte seca, só porque acha que merece isso. Vejo gente aceitando mentiras, aceitando o que outrora lhe fazia encher a boca para dizer que era inaceitável. Fazendo dieta forçada só para estar na moda. Gente minguando todos os dias porque não vai atrás de um sentimento que faça crescer. Gente que se contenta com migalhas, dos outros, ou que ela própria deixou, caídas, em cima da mesa da cozinha.
Quantas pessoas conhecem que dizem que está tudo, tudo bem, que não querem nada sério também, que entendem que se deve esperar, quando na verdade querem sim algo concreto, completo, querem abraços, beijos, querem o sim, querem o agora? Até quando vão anular as suas vontades por conta do medo de perder o outro? Querem um prato cheio, querem comida fresca, querem se embriagar, mas dizem que não – prato cheio e beber demais é meio deselegante. Feio é passar fome, feio é dizer não quando se quer dizer sim, feio é aceitar migalhas dormidas, secas e vazias. E no fim do dia resta o ronco rouco do estômago, misturado com o coração vazio.

Existem pessoas viciadas em pizza, outras que não estejam dispostas a pagar o valor do bacalhau de natas, que enche a barriga e a alma, e quem goste de outras coisas.

E foi assim que, entre tachos e panelas (leia-se metáforas e metonímias), visitei o amor … na cozinha.

Fiquem bem !!