Gil M. Teixeira & Irmão Lda. é a loja mais antiga de Ponta Delgada

Ana PaivaFoi pelas mãos de Américo França que nasceu aquela que é a loja mais antiga de Ponta Delgada. Estamos a falar da empresa Gil M. Teixeira & Irmão Lda. que já conta com mais de cem anos de existência. Em 1911, esta loja de comércio fixou-se no número 42 da Rua dos Mercadores, em Ponta Delgada, onde permanece até aos dias de hoje. Em 2001, depois da morte do pai, Ana Isabel Teixeira Paiva e o marido assumiram as rédeas da empresa e ficaram a gerir a loja.
Louças, vidros, artes decorativas, artesanato ou sementes, tudo isso pode ser encontrado na Gil M. Teixeira.

Diário dos Açores - Em que ano abriu a Gil M. Teixeira?
Ana Paiva – Inicialmente esta empresa estava localizada no começo da Rua dos Mercadores, em Ponta Delgada, e, em 1911, é que o então proprietário, Américo França, mudou-se para onde nos encontramos actualmente, ou seja, para o número 42 da mesma rua e aqui ficou a empresa até aos dias de hoje.
Naquela altura vendiam-se ferragens, depois foram introduzidas louças, sementes, artesanato, plásticos, artigos em inox, cristais, etc.
No ano 1952, o meu tio e o meu pai compraram a loja ao senhor Américo França que já estava numa idade avançada. Entretanto, em 1972, morreu o meu tio, ficando o meu pai sozinho com o negócio, porque adquiriu a parte do meu tio. Em 2001 o meu pai morreu e foi nessa altura que eu e o meu marido ficamos com a empresa.

Sempre esteve ligada à loja?
AP – Não. Depois do meu percurso estudantil, ainda tive dois anos a dar aulas na Ribeira Grande. Só quando o meu pai faleceu é que decidi ficar com o negócio.

Preferiu deixar de ser professora para se dedicar ao comércio?
AP – Sim. Sempre gostei desta vida e gosto muito do contacto com as pessoas. É claro que também gostava muito de ser professora e das crianças, mas acabei por seguir este rumo. Gosto particularmente do contacto com pessoas de outras nacionalidades como é o caso dos ingleses, franceses ou alemães. Mesmo que às vezes eu não perceba tudo o que eles dizem, é muito gratificante falar com eles, perceber as outras culturas e também dar a conhecer a nossa cultura.

Como foi evoluindo a loja ao longo de todos estes anos?
AP – Houve muitos pormenores que tivemos que modificar. Uma primeira opção tomada pelo meu pai e pelo meu tio foi acabar com as ferragens. Ao longo destes anos também tivemos perfumaria, em que vendíamos perfumes a litro, lâminas e desodorizantes, mas também desistimos destes produtos. Do mesmo modo, também deixamos de vender plásticos. Por outro lado, houve produtos que evoluíram, como é o caso dos artigos de pastelaria, em que temos grandes colecções de formas de bolo, e das imagens religiosas. A maior evolução foi ao nível do artesanato, embora continue a vender cristais, porcelanas e louças.

Onde tem sido a sua maior aposta?
AP – Neste momento estou a apostar bastante no artesanato, naquilo que é nosso e fala dos Açores. No entanto, o que vende sempre são os artigos religiosos e os cristais. Quando o artigo é bom, vende sempre como é o caso dos serviços da Vista Alegre, faqueiros e os artigos em inox.

Tem novos projectos ou novas ideias para o seu negócio?
AP – Estou sempre a inovar ao nível dos produtos. Se vejo um artigo que considero que poderá vender, trago-o para a loja. Vou colocando uns e tirando outros… Agora ando a vender malas de cortiça, também ando a apostar em panos e toalhas de mesa bordados. Ou seja, quando vejo algo novo aposto no artigo.
Esta não é uma «casa» que tem sempre o mesmo artigo, vamos sempre modificando e implementando o que é possível.

Quem é o seu cliente?
AP – Todas as pessoas. Desde a criança que vem aqui comprar um mimo para oferecer à mãe no Dia da Mãe, até ao cliente com mais de 90 anos que vem aqui comprar o almanaque do camponês, ou o calendário ou um pacote de sementes.
Tenho de todas as classes sociais, desde o lavrador e o agricultor que têm por hábito vir buscar sementes ou bolbos, até aquela pessoa que vem comprar um serviço de cristal, um faqueiro ou uma peça decorativa.

É uma loja que já conquistou o seu mercado em Ponta Delgada?
AP – Sim. Esta loja é já uma referência e ao nível de lojas deste género, já são poucas. Esta loja é a mais antiga de Ponta Delgada.

Onde são diferentes?
AP – Esta loja é a que tem o mobiliário mais antigo. Na maneira de atender os clientes, mantivemos sempre a mesma postura ao longo destes anos. Também ao nível da exposição dos produtos ainda mantemos como se fazia no passado, nunca mudamos!

Nunca foi uma opção alterar o mobiliário?
AP – Houve situações em que fomos forçados a fazê-lo, mas apenas porque o mobiliário foi-se desgastando. Tinha uns armários que ofereci ao Museu das Capelas, há umas peças que tivemos que alterar e outras que recuperamos.

É com orgulho que gere esta loja?
AP – Sim, muito!

É a única a trabalhar na loja?
AP – Tivemos uma altura em que éramos sete funcionários na loja, isso quando vendíamos valores selados, como os selos dos automóveis e tudo o que era das Finanças e preenchíamos documentos. Naquela altura havia mais movimento, mas com a evolução e com a passagem destes serviços para outros locais, fomos reduzindo funcionários. Houve uma ocasião em que éramos quatro na loja, mas com a crise e com o custo de vida optamos por no dia-a-dia ficar eu e o meu marido e nas alturas de mais movimento contratamos um ou dois empregados.
Quando vamos de férias optamos por encerrar a loja durante oito dias, o que compensa mais em termos de negócio.

Em que altura do ano a loja tem mais movimento?
AP – Entre Abril e Maio, principalmente por causa das festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, entre Julho e Agosto, sendo que este ano foi diferente, tive mais movimento nos meses de Julho e Setembro e depois a partir de meados de Novembro até ao princípio de Janeiro.

Pensa no futuro e no que será da sua empresa?
AP – Um dia ela terá de fechar as portas. Cada um dos meus filhos já tem o seu curso e a sua vida organizada. A ideia é manter a loja mais alguns anos. Não gosto muito de planear as coisas, vou viver o dia-a-dia e depois logo se verá.

Não conseguiu passar este gosto aos seus filhos…
AP – Não, nem queria, porque apesar de tudo esta vida é muito difícil e exige muitos sacrifícios. Temos que trabalhar todos os dias, sendo que aos Sábados estamos abertos apenas até às 13h00 e só descansamos aos Domingos. Mas nos Sábados e Domingos de Natal e quando há navios de cruzeiro também vimos trabalhar. Embora goste muito desta vida, ela não deixa de ser muito cansativa e por isso prefiro que os meus filhos tenham as suas vidas organizadas como estão actualmente.
Não gostava muito de os ver aqui, mas se visse, tenho a certeza que o negócio seria diferente.

Com a abertura do espaço aéreo às companhias de baixo custo sentiu que o negócio cresceu?
AP – Sim. O ano passado, a partir de Abril senti logo uma diferença. Mesmo que o cliente leve pouco, nota-se um maior movimento. O que sinto falta é do nosso emigrante que tem essa loja como uma referência. Sempre que um emigrante vem a São Miguel, ele vem sempre aqui. Gosto muito de falar com eles. Contudo, no último ano, senti a falta dos emigrantes que já não vêm tanto como vinham e já não trazem a família. As passagens estão muito caras e como eles têm outras opções mais económicas, acabam por ir para outros destinos.
Costumo dizer muitas vezes que antes um avião de emigrantes, do que cinco navios de cruzeiro. Os turistas que vêm nos cruzeiros são muito inconstantes, nunca sei o que eles procuram. Às vezes há uns que vêm à procura de uma peça antiga, outras querem a recordação dos Açores ou um artigo de artesanato. Não deixa de ser bom, porque sempre vendemos.

Estando localizada na Rua dos Mercadores, é dos comerciantes que defende o encerramento desta rua ao trânsito?
AP – Não é fácil ser comerciante nesta rua, desde logo pela falta de estacionamento que acaba por ser um grande entrave. Também os pilaretes que foram colocados nesta rua acabaram por ajudar porque inibiu o estacionamento. Antes, tive algumas vezes que chegava à loja e não podia entrar porque tinha carros estacionados mesmo na porta da loja.
Entendo que esta rua deveria ser encerrada ao trânsito, e já venho falando nisso desde que esta rua foi calcetada em 2009. Na altura, a ideia da presidente da Câmara (Berta Cabral) era mesmo fechar esta rua ao trânsito, mas houve alguns comerciantes que não quiseram e assim ficou.
Não tenho dúvidas que seria uma mais-valia para todos se não passassem carros nesta rua. Acredito que numa rua só para peões poderia fazer-se muitas coisas. A animação seria logo outra, poder-se-ia colocar bancos nas ruas, com os próprios comerciantes a trabalharem ao vivo, como por exemplo, a fazer-se piercings, tatuagens, maquilhagem, desenhos, etc… trazer este tipo de actividade para esta rua seria uma maravilha.

Sente-se uma empresária satisfeita e realizada?
AP – Sim! Gosto muito do que faço!

Por: Olivéria Santos