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Nova Inglaterra está coberta de hortênsias

hortensias eua 2O escritor e professor universitário açoriano residente nos EUA, Onésimo Almeida, colecciona, desde há alguns anos, fotos de hortênsias que vai encontrando em quase todos os estados da Nova Inglaterra. Nesta crónica, conta várias histórias relacionadas com esta planta muito conhecida das ilhas açorianas.

 

No correio electrónico arriba-me uma mensagem do Alentejo com anexo.
O amigo Olegário avisava que me remetia imagens das hortênsias do seu jardim.
Tirara-as o olho esteta doutro (comum) amigo, Artur Goulart.
Dois jorgenses entusiasmados com uma transplantação da flora açoriana para o Alentejo profundo.
No Maine, porém, o meu acesso à Internet tem limitações e não é qualquer anexo que consigo abrir neste portátil.
 Três dias depois, uma insistência.
Queria ter a certeza de que eu recebera as fotos em condições. Captei urgência na partilha do prazer e fui então à biblioteca de Boothbay Harbor, a vila aqui próximo, meu pneu de socorro para leitura de documentos muito vagarosos de descarregar.
Bela, a foto.
Exuberantes as hortênsias, de uma matiz pouco comum nos Açores, um lilás mais arroxeado, laivos de cor-de-vinho, mas irrepreensivelmente hidrângea no traço. E, noviço, bem diferente da criptoméria que uma vez o João de Melo, pesaroso, também me mostrou ao vivo, por ele transplantada de S. Miguel para a sua vivenda de fim-de-semana, em Mafra. A pobre, raquítica de saudade talvez, definhava a olhos vistos, apesar dos múltiplos cuidados enfermáticos do João que ainda hoje não conseguiu o segredo de a fazer desabrochar.
Nos últimos anos tenho vindo a notar uma proliferação de hortênsias na Nova Inglaterra e palpito que sejam de proveniência açoriana.
Não as observo apenas nos subúrbios tradicionalmente portugueses de Westport, Somerset, Swansea ou Bristol, mas por todo o sudeste da região.
Em Little Compton, por exemplo, deparo com elas inexplicável mas sistematicamente num azul intenso e puro.
Mas ele há-as em profusão salpicando de azul e branco o lençol imenso de verde destas paragens. 
Decididamente não as via há três décadas quando aqui arribei.
Começaram pelas casas portuguesas – as açorianas, obviamente – no afã de reproduzirem o mundo que atrás deixaram.
Passeio-me pelos bairros da região e identifico facilmente as casas portuguesas pelo traçado dos jardins e pelas flores, que são quanto possível uma réplica fiel dos portugueses, bem mais lado quente do arco-íris do que os americanos.
Os autoctones privilegiam a relva, de preferência em terreno ondulado, se há espaço, e manchas assimétricas de arbustos e flores de cores em manchas, contrastantes ou apenas condizentes.
O traçado do jardim português é mais geométrico, prefere o higiénico cimento junto à casa, os canteiros circundados de tijolo pintado de branco ou vermelho e muito simétricos, desenhados a esquadria.
As flores garridas: sécias, dálias, palmas, malmequeres, rosas, cravos e as hortênsias, of course.
A culminar o enquadramento, uma latada com frequência desdobrada em garagem.
Ah! E a Nossa  Senhora de Fátima numa capelinha, costume herdado suponho que dos italo-americanos, mas hoje aqui marca indubitavelmente portuguesa.
De repente, o azul e branco da hortênsia caíram, ao que parece, no goto da estética de jardinagem iankee.
E como muitos imigrantes portugueses trabalham em companhias de jardinagem que cuidam da manutenção do landscaping em abastadas residências, foram aos poucos introduzindo as estacas, porque os novelões – como são conhecidas nos Açores -  pegam sem grande esforço.
 Se fincarmos as estacas em Outubro, na lua-não-me-lembro-qual, como um dia me tentou ensinar o meu tio Luís Carvalho, ao oferecer-me os exemplares que agora também tenho lá em casa, em Junho elas desabrocharão em festa.
Há vinte anos, o jardineiro de Mrs. Brown, descendente dos magnates enriquecidos no China trade, os mesmos que deram o nome à Universidade de Brown, orgulhava-se-me de ter embelezado o imenso jardim da mansão da senhora em Newport que, a seu cuidado, fazia inveja à high life importante que por lá circulava.
Nunca enxergaram a maravilha das nossas estradas dos Açores no Verão! – ufanava-se com os pontos de superioridade que sobre os ricaços a memória lhe concedia. Toda a gente queria hortênsias para a sua mansão.
E sabe como é que as trouxe das ilhas? Escondidas nas pernas das calças para não m’as sacarem na alfândega em Boston!
Num dos primeiros simpósios sobre a euforia dos quinhentos anos da expansão marítima portuguesa, na Columbia University, em New York, quando a caravana lusitana enfrentou pela primeira vez em cheio o multiculturalismo e sentiu dever passar a falar em ‘encontros de culturas’ em vez de ‘descobrimentos’, lembro-me do impacto provocado pela comunicação  de Alfred Crosby, autor de um livro pelos nossos então desconhecido - Ecological Imperialism.
Não lembrava ao diabo esse aparente exagero do politicamente correcto, nessa altura já em pleno vigor nos Estados Unidos.
O certo é que o investigador traçou as rotas da globalização das plantas e acompanhantes pragas e micróbios transportados de um ponto para o outro do planeta nas naus das descobertas e das rotas comerciais.
Se algumas foram constituir gloriosa tradição, como o chá britânico, outras tiveram efeitos perniciosos.
Benéficos frutos dessas trocas globais recebi eu na minha infância e adolescência, que no quintal usufruía de araçás, goiabas, anonas e maracujás vindos do Brasil e a bela rosa japoneira (só mais tarde percebi que rosas do Japão e camélias eram a mesma flor), que não tinha espinhos e por isso me tornavam a vida fácil no arranjo dos canteiros que regularmente fazia por ordem expressa da minha mãe.
Alfred Crosby havia de ter uma gorda mina se se pusesse a investigar em Boston o contrabando vegetal que regularmente por lá entra escapulindo-se aos olhares espias dos funcionários.
Eu próprio já contei numa outra crónica a minha aventura – afinal depois legalizada - de conseguir que me deixassem entrar com esterelícias e orquídeas trazidas da Madeira.
Quando uma vez leccionei um curso de Verão na University of Massachusetts, em Boston, uma aluna luso-americana apercebeu-se do meu vício de ouvir e contar histórias e começou no que prometia ser uma barrigada delas que resolvi aceitar em troca de um convite para almoço.
Trabalhava na alfândega em Boston e arquivava experiências deliciosas com gente de todo o mundo, mas para um compatriota contaria sobretudo com gente nossa em cena.
Não consegui comer. Nos intervalos do meu riso só dava tempo de retomar o fôlego que se me esvaía nas gargalhadas.
Tanto que imaginei logo nela uma convidada ideal para o meu programa de televisão.
O que julguei constituiria um êxito redundou, porém, num mísero fracasso.
Nunca em vinte e tantos anos do programa recebi tanto protesto.
Os tomates e ovos podres devem ter atingido a minha imagem, mas felizmente apenas nos televisores em casa do furioso público. Sei de há muito que uma graça tem piada quando é a propósito de outrem, que o riso à nossa custa não tem mesmo pilhéria nenhuma.
Não me apercebera todavia do quanto de investimento psicológico pessoal - e má-consciência? - os meus patrícios tinham nas suas transacções contrabandísticas que eu julgara inocentes e até recebera com riso cândido na conversa da TV.
Obviamente que as histórias viviam da capacidade histriónica e mimética da moça. Em si, não grangeiam mais do que um esboço de sorriso. E recontadas por escrito muito menos.
Por isso nem deveria sequer tentar. Além do mais, por ser derivação demasiada, embora eu não resista a levantar o véu sobre algumas.
De entre as muitas histórias reais que me contou, reproduzo esta: De uma vez, notou que um portuguesíssimo compatriota coxeava. Desconfiada, tentou indagar. Que não era nada, um mau jeito numa perna. Mas ela viu, a espreitar no fundo das calças, provavelmente tentando desesperadamente sorver um pouco de ar, o que se revelou ser um pé de vinha.
De outra vez, um déjà vu – eram agora estacas de hortênsias.
Como se de propósito, a New York Times Magazine de ontem trazia um artigo-profile sobre Max Kennedy, filho do trágico Robert, a propósito da sua desistência da vida política após o descalabro de um desatinado discurso eleitoral.
 Max fala da carga pesada nos seus ombros do nome e imagem do pai. Quer regressar à família e à serenidade privada.
Uma foto dele com quatro filhos, quase todos ainda a mudar de dentes, na sua casa de Hyannisport, no Cape Cod, revela ao fundo um enfiamento de belas hortênsias azuis e brancas.
E, ontem à noite, depois de umas horas no enlevo da Camden Library, deambulei com a Leonor pelas ruas e inevitavelmente aterrámos em mais uma livraria.
A capa de um vistoso livro-album, sobre jardins, Gardens Maine Style, fresquinho da impressora, é de uma dessas vivendas que por este Maine fora casam a simplicidade com a elegância.
Essa porém, enlevava-se em tufos de sedutoras hortênsias. Dentro, explicava-se que essa flor, ainda rara no Maine, foi plantada em 1995 pelos donos da casa, uns tais Susan Weinz e Daniel Krajack, que pela experiência aprenderam que essas belezas se dão até trinta milhas da costa, mas não mais.
Porque não viram, claro, a fotografia das do meu amigo Olegário enviada do interior do Alentejo.
Por tudo isso, se algum telespectador que se tenha revisto nesse famigerado programa de televisão de há anos ler esta crónica, perdoe-me pelas alminhas do purgatório.
Não sou anti-imperialista ecológico e bendigo quem ao longo destas décadas aldrabou os funcionários do aeroporto de Boston com uns pezinhos da bela hortênsia açórica.
E, já agora, aspas-aspas e bençãos também para o meu velhinho amigo, senhor… (não me atrevo obviamente à indiscrição de lhe revelar o nome) que, milagrosa e malabaristicamente,  ludibriou o inspector de alfândega (se calhar  mesmo a minha ex-aluna) com uma disfarçada caixinha de garrafas de angelica  made in Pico.
De que eu provo e aprovo sempre que  consigo uns minutos para um salto a casa dele.
PS - 1 – Não sei se é coincidência, mas três dias depois de escrever esta crónica, no pequeno supermercado de New Harbour, na península de Pemaquid, achei mais hortênsias em realce na capa de uma revista.
Desta vez, um garboso vaso delas na capa da revista Martha Stewart Living (número de Agosto de 2001), com um longo artigo no interior sobre “Designing with hydrangeas”, de Daniel J. Hinkley, ilustrado com fotografias do jardim da própria Martha (directora da revista) onde as hortênsias se espalham em harmoniosa profusão e bem conseguida policromia.
O texto entra em distinções botânicas e o seu ajustamento a diferentes tipos de solos do tipo: “o nível de pH de um solo (a medida de acidez ou alcalinidade) pode influenciar a cor e tom das hidrângeas. Solos ácidos (pH 0 a 7) tendem a apronfundar os tons azuis, enquanto os ambientes alcalinos (pH 7 a 14) acentuam os cor-de-rosa e vermelhos.” E por aí fora com mais pormenores como este, quase no final, a propósito de algumas espécies que só desabrocham em caules novos e por isso necessitam de ser podadas no Inverno: “Estas incluem a Hydrangea paniculata (USDA Zonas 4 a 8) e as variedades H. arborescens (Zonas 4 a 9) como a popular ‘Annabelle’. Outras hidrângeas, incluindo a maioria das H. macrophylla, só floresem no segundo ano”.
Se calhar,  lá se vai a minha teoria da origem açoriana. Mas a mansão de Martha Stewart é em East Hampton, Long Island, nada longe  de Rhode Island e Massachusetts. De qualquer modo, é a cientifização da ruralíssima, silvestre e quase espontânea bela hortênsia dos Açores e, tornada agora capa da Martha Stewart, uma instituição americana e padrão de gosto nacionalmente reconhecido, o fim da identidade açoriana da hidrângea, a sua globalização total. (Ó minha gente dos Açores, ao menos guardem as lapas e as cracas!)

Boothbay Harbor, Maine.
Julho/2001

PS – 2 - Depois da escrita deste texto, passei a estar mais atento e fui coleccionando o que hoje é um vasto dossier de imagens de hortênsias em publicações nos EUA e notas sobre exemplos variados que por todo o lado vou encontrando, muitas vezes registando em fotos.
Providence, Rhode Island
1 de Março de 2013

Por: Onésimo Almeida