Marco Ferreira receia aumento de 40 cêntimos em cada carteira de tabaco

marco ferreiraPrestes a completar 25 anos na gerência da Tabacaria Autonomista, em Ponta Delgada, Marco Ferreira, falou com o Diário dos Açores sobre a evolução desta empresa centenária. Sendo um negócio que se dedica à venda de tabaco, este responsável destaca as dificuldades com que se depara no dia-a-dia, realçando que os impostos altos são um dos maiores entraves. O próximo desafio, diz, será ver como o mercado se vai comportar “com um dos maiores aumentos de preço de todos os tempos nos Açores que será de 40 cêntimos em cada carteira de tabaco”.


Diário dos Açores – Conhece a história da Tabacaria Autonomista?
Marco Ferreira – Sei que é uma casa centenária e quando vim para a tabacaria, em 1993, ouvia-se falar que a tabacaria tinha pertencido a um senhor chamado Aníbal. Na altura ele usava a tabacaria para comercializar tabaco, mas era também um espaço que servia para juntar algumas pessoas, numa espécie de tertúlia. Entretanto, em 1985, o meu sogro adquiriu a tabacaria ao senhor Aníbal e foi nessa ocasião que apareceu o nome Tabacaria Autonomista, porque antes era Tabacaria Aníbal.

DA – Como foi a evolução da tabacaria quando ela passou para as mãos do seu sogro?
MF – No início, o edifício onde nos encontramos não era nosso e tínhamos que pagar renda. Também como a empresa era em nome individual tínhamos que pagar muitos impostos. Então optamos por criar uma sociedade. Com o falecimento do proprietário do edifício, adquirimos este espaço e, em 2011, constituímo-nos como Tabacaria Autonomista, Lda., o que veio permitir, ao nível fiscal, que tivéssemos mais algumas regalias.

DA – A empresa sempre se dedicou ao ramo da tabacaria?
MF – Sim. Actualmente temos a tabacaria e distribuição de revenda de tabaco da Fábrica de Tabaco Estrela.

DA - Na loja, para além do tabaco, tem outros produtos ao dispor dos clientes?
MF – Temos todos os artigos para os fumadores, como isqueiros, cigarreiras, e tudo o que é preciso para cachimbos. Temos ainda os jogos da Santa Casa da Misericórdia o que veio trazer mais afluência à loja.

DA – Tem produtos que sejam exclusivos da sua loja?
MF – Não necessariamente. Pode haver um ou outro artigo que só veja na Tabacaria Autonomista, mas não temos nada exclusivo.

DA – E a revistas e jornais, vieram por acréscimo?
MF – Acabam por ser um complemento, mas não é uma grande aposta nossa. Não tenho um grande expositor destes artigos, como se vêem em outras tabacarias. Temos apenas alguns títulos das revistas que mais se vendem.

DA – O Marco já faz parte da Tabacaria há cerca de 25 anos. Como foi o negócio ao longo destas duas décadas?
MF – Já passamos por muitas etapas. O tabaco é um produto cujos impostos são bastante altos. Ao longo destes anos fomos sobrevivendo e ultrapassando as várias fases que foram aparecendo.
A subida dos preços é sempre o pior e influencia bastante o consumidor, apesar de nos Açores o tabaco ser mais barato do que no continente, o que para nós é uma mais-valia. Ao longo destes anos fomos trabalhando sempre dando o nosso melhor.
Com o aparecimento das imagens nos maços de tabaco fiquei com algum receio que isso nos fosse prejudicar, mas pelo que temos visto, as vendas não baixaram e mantivemos os nossos clientes habituais.

DA – Entende que esta campanha não veio reduzir o número de fumadores?
MF – Serviu para alertar e chamar a atenção, mas não veio prejudicar as vendas.

DA – Tratando-se de um negócio cujo produto chave tem campanhas que visam, precisamente, não o consumir, não deve ser muito fácil…
MF – Não é um produto fácil, mas é a minha vida e é o que tenho para vender. Todos os dias há sempre pessoas que deixam de fumar e outras que começam. Na nossa loja chamamos também sempre a atenção que só vendemos a maiores de 18 anos.
Tratando-se de um negócio cujos impostos são bastante elevados, com as muitas campanhas de sensibilização a apelar ao não consumo faz com que o negócio não seja muito fácil, mas é o nosso negócio.

DA – Tem novos projectos para a Tabacaria?
MF – Para já não. Hoje a tabacaria está muito diferente do que era no passado. Tivemos que investir na loja porque o mobiliário antigo que eram um armários muito rústicos tiveram que ser renovados. Com pena minha não conseguimos restaurar o que existia cá porque, de facto, já estavam bastante degradados. Optamos por outro tipo de mobiliário mais contemporâneo e com um novo visual.
O nosso projecto para o futuro passa sempre por ir ultrapassando as dificuldades que vão surgindo. Vamos ter agora um dos maiores aumentos de preço de todos os tempos nos Açores que será de 40 cêntimos em cada carteira de tabaco e vamos ver como os consumidores vão reagir a este aumento.
Será um aumento que se irá reflectir já no próximo mês de Março e será mais uma fase que teremos que ultrapassar.

DA – E como ultrapassam estas fases se pouco podem fazer?
MF – Basicamente é ver como o mercado se vai comportar. Não podemos fazer nada, nem podemos exigir que as pessoas fumem. Só podemos é analisar os comportamentos dos consumidores, de resto nada mais podemos fazer, nem sequer publicidade. Deixamos de poder fazê-lo, inclusive nas próprias máquinas de venda de tabaco. As fábricas também apostavam em publicidade, mas, do mesmo modo, foram impedidas de o fazer.
Resta-nos servir bem os nossos clientes e angariar novos, fazendo o nosso melhor.

DA - No que diz respeito à distribuição, como está a empresa organizada?
MF – Temos distribuição desde que temos tabacaria. Temos os nossos distribuidores com as rotinas delineadas que compreendem Ponta Delgada e Lagoa. No passado, tínhamos toda a costa sul, mas em parceria com outros distribuidores, chegamos a acordo e dividimos as áreas de distribuição entre nós. Foi uma forma de poupar algum dinheiro em gasóleo e no desgaste dos veículos.
Fazemos a distribuição diariamente de Segunda a Sexta-feira. Se as máquinas são geridas por nós, fazemos esse trabalho, caso contrário, o cliente diz-nos o que precisa.
O que temos notado é que cada vez mais os proprietários de cafés dão as máquinas para que sejamos nós a gerir. Ou seja, nestes casos o capital investido na máquina é feito por nós. Com excepção para as grandes empresas que fazem a sua própria gerência, tem-se assistido muito a esta opção por parte de alguns empresários.

DA – Alguma vez pensaram em chegar a outra ilha dos Açores?
MF – Não há essa possibilidade porque cada ilha tem o seu próprio distribuidor.

DA – O tabaco é um negócio que gera muito dinheiro?
MF – Sim, muito! É um negócio que tem uma grande rotação de dinheiro. Não para nós enquanto tabacaria, porque a nossa margem é muito curta. O que nos faz ganhar algum dinheiro é o volume das vendas.
E com os aumentos dos impostos, gera ainda mais dinheiro. A título de exemplo posso dizer-lhe que numa caixa de 25 volumes, estamos a falar de 500 e 600 euros. É muito dinheiro.

DA – A Tabacaria Autonomista já recebeu prémios?
MF – Em 2013, ficamos classificados como a 6ª melhor empresa dos Açores referente ao ano 2012. Um reconhecimento que foi bastante importante para nós e foi algo que nunca tínhamos pensado alcançar, o que nos apanhou de surpresa. Foi um prémio que nos veio dar mais ânimo e mais força para continuarmos o nosso caminho.
Também em 2016 fomos reconhecidos como a 5ª melhor empresa entre 100 dos Açores.

DA – É um orgulho?
MF – Sim, sem dúvida que é um orgulho e uma satisfação bastante grande. Estes prémios mostram-nos que estamos no bom caminho e a fazer um bom trabalho.

DA – É fumador?
MF – Não (risos). Fumei quando era mais novo, mas nunca foi algo que me despertasse o interesse e que tenha gostado. O facto de também ser muito virado para o desporto pode ter influenciado esta decisão de não fumar.

DA - Uma vez que o tabaco nos Açores é bastante mais barato do que no continente. Tem ou já teve encomendas para o continente?
MF – Sim, tenho muitos telefonemas a solicitar o envio de tabaco. Já tive mesmo bastantes encomendas, mas agora já não é possível fazer isso. O tabaco que sai dos Açores com destino ao continente está a ser todo apreendido. Alguns pais que têm filhos a estudar fora dos Açores faziam alguns envios pelos correios, mas nos últimos anos isso já não é possível. Agora é ilegal enviar tabaco para fora dos Açores. Nós cá temos um imposto e um IVA próprios o que estipula que o nosso tabaco só possa ser vendido cá. Pode-se é fazer pessoalmente. A lei permite que se possa levar 4 volumes de tabaco por pessoa. Uma pessoa do continente que venha cá de férias pode levar consigo tabaco, mas já não pode pedir que lhe seja enviado pelos correios. É considerado contrabando.

DA – Conta com quantos colaboradores?
MF – Tenho os funcionários necessários para fazer rotação na loja, e temos sempre dois colaboradores na distribuição. Estamos abertos de Segunda a Sábado. Durante a semana não fechamos para almoço, estamos abertos das 09h00 às 18h00 e, aos Sábados, estamos abertos até às 13h00.

DA – No que concerne a investimentos, onde foi a maior aposta?
MF – Foi ao nível da remodelação da loja e também estamos sempre a investir nas nossas viaturas. O investimento mais recente foi a aquisição deste edifício.

DA – Como olha para o futuro da Tabacaria Autonomista?
MF – Espero que o Governo não esteja sempre a impor estes impostos e estas leis contra o tabaco e que consigamos sempre ultrapassar todos os obstáculos do dia-a-dia.

DA – Mas compreende as campanhas anti-tabágicas?
MF – Sim, claro que sim. Sabemos que o tabaco é prejudicial à saúde, que provoca muitos cancros e doenças cardio-respiratórias, mas entendo que a pessoa, maior de idade, é livre de escolher para o bem e para o mal. Se a pessoa sabe que está a consumir um produto nocivo para quê esta informação tão forte? Entendo que cabe a cada um fazer a sua decisão.

Por: Olivéria Santos