“O nosso forte passa por confeccionar peças exclusivas e únicas”

VogaNelson e Cristina Pragana são os proprietários da loja Voga, na Rua Dr. Guilherme Poças, em Ponta Delgada, que se dedica à venda de tecidos e confecção de peças de alta costura. Confeccionam para noivas, baptizados, comunhões e cerimónias. Em entrevista ao Diário dos Açores, contam como é gerir um negócio desta natureza e dizem olhar com apreensão para o futuro da área. “As modistas estão a desaparecer”, afirma Nelson Pragana. O casal mantém-se, contudo, optimista: “costumo dizer que, enquanto houver festas, haverá sempre quem queira fazer um vestido”.

Diário dos Açores – Como surge a loja Voga em Ponta Delgada?

Cristina Pragana (CP) – Eu, durante cerca de 10 anos, trabalhei na loja Franci Botelho e sempre tive gosto pela área da moda, dos tecidos e da criação de vestidos. Esta loja, entretanto fechou, e eu e o meu marido tivemos a ideia de abrirmos um negócio nosso, dentro da mesma área, pois havia muita procura. Sentimos que havia necessidade de mais uma loja em Ponta Delgada dedicada à confecção de vestuário de alta-costura. Acabámos, então, por investir e cá estamos, ainda abertos. Temos registado uma grande procura pelos nossos tecidos, porque aqui as pessoas fazem um vestido único. Os vestidos são feitos consoante a estrutura de cada pessoa, de acordo com aquilo que a irá favorecer em termos de corte, de feitio. Ficam com uma peça exclusiva. 

 

Há quanto tempo abriram a Voga?

CP – Abrimos em 2008.

Nelson Pragana (NP) – Sim. Vamos celebrar 10 anos em Outubro deste ano. 

 

E como tem evoluído a actividade desde então?

NP – Ao longo destes anos, o negócio tem se mantido razoável. Só desde há dois anos para cá é que temos notado um decréscimo de vendas, que associamos à entrada as companhias aéreas ‘low-cost’ nos Açores. A vinda da Ryanair não só trouxe muitos turistas para São Miguel, como também levou muitos açorianos para Portugal continental, que aproveitam para fazer compras ‘lá fora’. Isso reflecte-se no nosso mercado e na nossa loja. 

CP – As vendas diminuíram um pouco, é verdade, mas a verdade é que a procura pelos nossos serviços mantém-se. Isto porquê? Porque há sempre alguém que quer um vestido exclusivo, como é o caso das noivas. Durante anos, a pessoa sonha e idealiza um vestido de noiva para o seu grande dia. Aproximando-se a data, procura-nos para confeccionarmos o vestido que sonhou. O nosso forte passa por isso: confeccionar peças exclusivas e únicas. Além da questão da exclusividade, oferecemos também uma grande variedade de tecidos de qualidade. Temos desde rendas, bordados, jacardes, toda a variedade de tecidos lisos e isso é uma mais-valia para o cliente.

 

Que serviços são mais solicitados?

CP – Nós estamos especializados na área de cerimónia. A confecção para o dia-a-dia foi algo que acabamos por retirar do nosso leque de serviços. Inicialmente, quando abrimos, chegámos a fazer muita roupa para o dia-a-dia e havia muita procura. Confeccionávamos fatos para senhoras de idade para ocasiões especiais, como o Natal ou para as festas do Senhor Santo Cristo. Mas essa procura foi deixando de existir e acabámos por deixar de trabalhar nesta área. Actualmente, trabalhamos na área de cerimónia e procuram-nos para vestidos para noivas, madrinhas, mães, crismas, coroações, comunhões. Esta é a nossa especialidade. 

 

Qual a diferença da vossa loja em relação a outras, que também vendem tecidos?

NP – A diferença é que temos fornecedores exclusivos, alguns italianos. E a nossa lógica passa por nunca pedir muita quantidade de tecidos para evitar que apareçam vestidos iguais nas cerimónias. Temos tecidos com padrões que não se consegue encontrar noutra loja qualquer. Esta é a nossa grande diferença em relação a outros espaços. 

 

E diriam que é isto a chave do sucesso da Voga?

CP – Sim, a nossa variedade e exclusividade. Não pedimos grandes metragens de tecidos porque assim conseguimos controlar as vendas. Ou seja, vendemos um tecido para vestir uma ou duas senhoras e já não vendemos mais. Para termos noção dos números, nós marcamos as datas em que os tecidos são vendidos. É uma forma de garantir aos nossos clientes que terão um vestido único na ocasião, seja um casamento ou outra ocasião qualquer.

 

Vendem pronto-a-vestir?

NP – A nossa aposta não passa por aí. Quem compra pronto-a-vestir, sabe que igual àquele mesmo vestido poderá haver outros 50. Claro que há senhoras que não se importam com isso, mas, na Voga, a aposta é a exclusividade. Além disso, lojas de pronto-a-vestir há imensas.

CP – Quem procura a Voga, procura para confeccionar. E, aqui, há todo um processo, não só de confecção, mas também de aconselhamento. Nós temos a preocupação de aconselhar sobre as melhores opções, tendo em conta a estrutura da pessoa, a altura, o tom de pele. E se a pessoa está indecisa entre três a quatro modelos, há a vantagem de podermos tirar partido de cada modelo e transformá-lo num só. 

NP – Posso acrescentar ainda que, se verificar os acabamentos no interior de um vestido confeccionado por nós, são mais minuciosos do que qualquer outro vestido feito numa fábrica, onde muitas vezes encontramos maus acabamentos, com linhas a aparecer… 

 

Conseguem dar resposta a todos os pedidos que vos chegam?

CP - Nós temos conseguido sempre corresponder aos pedidos dos nossos clientes e, se nós não tivermos algum tecido desejado, temos a possibilidade de os arranjar em dois ou três dias através dos nossos fornecedores.

NP – Somos uma empresa pequena e não temos intenção de crescer muito porque estamos numa ilha. Temos de ter consciência que o mercado é pequeno e fechado, mas temos de ir além de São Miguel. Temos, por exemplo, clientes no Porto, em Lisboa, nas outras ilhas. Enviamos encomendas para qualquer ilha. 

 

E estas encomendas são feitas online?

NP – Sim, através da nossa página do Facebook. As pessoas contactam-nos, mostram o modelo pretendido e nós enviamos por correio. Desde que abrimos a Voga que fazemos estas encomendas para fora da ilha. 

 

Quem é a cliente da Voga?

CP – As nossas clientes são, na maioria, senhoras da classe média-alta. 

 

É fácil ir ao encontro do que vos é pedido?

CP – Nós estamos sempre dentro da moda. Sabemos as cores que são tendência e sabemos o que se está a usar em termos de feitios. Mas nem sempre as tendências são apropriadas para o cliente que nos procura e é por isso que fazemos aconselhamento. 

 

Há clientes que vos procuram para reciclagem de vestidos?

CP – Sim. Muitas clientes procuram-nos para reciclar vestidos que já usaram. Fazemos essa reciclagem, fazendo cortes e arranjos e aplicando pormenores e acessórios de modo a transformar a peça noutra completamente nova. Por exemplo, agora que estamos na altura dos bailes de carnaval, há senhoras já com o armário cheio de vestidos que preferem vir cá e tirar partido do que já têm, em vez de comprar uma peça nova. Acaba também por sair mais em conta.

 

Em que alturas do ano vendem mais?

CP – Os vestidos que confeccionamos não são para usar no dia-a-dia, são para festas e ocasiões especiais, cerimónias. Não há uma altura específica em que vendemos mais, mas temos os bailes de carnaval, os bailes das debutantes, dos bailes do Clube Micaelense… As senhoras procuram-nos para confeccionar vestidos para estas festas. 

 

Como surge o gosto pela área da moda na sua vida? 

CP – Desde novinha que gosto desta área. Como já referi, trabalhei na Franci Botelho durante muito tempo e já estou nesta vida há 21 anos. Fui tomando cada vez mais gosto e adquirindo os conhecimentos necessários na área dos tecidos. Quando nós vendemos um tecido temos que conhecer a sua qualidade, textura, composição. Ou seja, para fazermos um bom trabalho, um bom vestido, temos que ter um bom tecido. Esta minha paixão por esta área acabou por evoluir cada vez mais e gosto muito do que faço.

 

Teve alguma formação na área?

CP – Não. A minha experiência é a minha formação. Sempre trabalhei com imensas pessoas, fornecedores, fábricas… e esses contactos só fizeram aumentar a minha experiência e conhecimentos.

 

Quantas pessoas trabalham actualmente na Voga?

CP – Somos uma equipa de quatro pessoas: nós dois e duas modistas. 

 

E que balanço fazem destes quase 10 anos? A crise afectou o vosso negócio?

NP – Fazemos um balanço positivo. A crise não nos afectou porque, quando iniciámos o negócio em 2008, a crise já estava instalada. Naquela altura não sentimos quaisquer dificuldades. Pelo contrário, as nossas melhores vendas foram nos primeiros anos de vida da loja.

CP – Não podemos dizer que não existiram altos e baixos, mas a procura manteve-se.

NP – Costumo dizer que, enquanto houver festas, haverá sempre quem queira fazer um vestido. 

 

De que forma olham para o futuro?

NP – Olhamos com alguma apreensão, porque as modistas estão a desaparecer. Algumas senhoras que fazem costura, com o tempo, vão deixando de o fazer devido à idade e são poucas as moças novas que querem saber deste tipo de trabalho. Daí estarmos apreensivos.

CP – As modistas que temos cá a trabalhar são jovens, mas ficamos preocupados com o cenário que existe a nível geral. Nós conhecemos as pessoas que se dedicam ao nosso ramo quase de uma ponta à outra da ilha e temos a noção que, de há uns anos para cá, muitas das senhoras costureiras que tinham “boas mãos” deixaram a actividade devido à idade. Estamos preocupados, mas temos um pensamento positivo.