Património Judaico de Ponta Delgada serve de exemplo para projecto em Cabo Verde

carol castielCarol Castiel é a presidente da Jewish Heritage Project, Inc., uma Associação sem fins lucrativos que tem por objectivo preservar o património judaico existente em Cabo Verde. Carol é jornalista e trabalha na Rádio Voz da América, nos Estados Unidos. Ainda assim, e também pelo facto de ser judia, decidiu abraçar este projecto que a trouxe até São Miguel na busca da presença judaica na Região. Ao Diário dos Açores, Carol Castiel não esconde a sua satisfação e até entusiasmo por tudo o que vi, aprendeu e estudou por cá.

Diário dos Açores - O que a trouxe aos Açores, em concreto à ilha de São Miguel?

Carol Castiel – Sempre quis conhecer os Açores e o que me trouxe a esta ilha em primeiro lugar foi a vontade que tinha em conhecer este arquipélago lindo. Em segundo lugar teve a ver com o facto de eu ser presidente de um projecto em Cabo Verde que tem por objectivo preservar a herança judaica naquele país. Os mesmos judeus que no século XIX foram para Cabo Verde também vieram para os Açores. Por este motivo, para mim, era muito importante e interessante comparar o que existe cá e lá.

Estamos a falar de judeus de Marrocos e de Gibraltar que foram após a abolição da inquisição, ou seja, após 1821, numa altura em que existia mais liberdade religiosa. Na altura, existia um tratado de comércio entre Inglaterra, Portugal e alguns territórios portugueses, onde se inclui Cabo Verde e provavelmente os Açores, e isto impulsionou a que estes mesmos marroquinos fossem para estes territórios.

Este é um assunto que me fascina muito, e a historiadora, já falecida, Fátima Sequeira Dias, escreveu muito sobre os Açores e a presença judaica nas ilhas, o que acabou por ser uma inspiração para mim, porque encontrei muitas semelhanças entre os Açores e Cabo Verde.

Depois de cá chegar, só posso dizer que não estou desiludida, antes pelo contrário, tenho estado fascinada e deslumbrada com tudo o que vi, nomeadamente a Sinagoga ou o Museu hebraico. Aproveitei para estar com José de Almeida Mello e fiquei impressionada com tudo.

Não há dúvidas que a presença judaica nos Açores era muito maior, influência não só da vinda dos judeus no século XIX, mas também da vinda de cristãos novos ainda antes da inquisição. Aliás, foram estas pessoas que foram fundamentais na criação da cidade de Angra do Heroísmo.

 

Em que fase está o seu estudo em Cabo Verde?

CC – Estamos muito no início da pesquisa. Sei que havia muito menos judeus em Cabo Verde em relação aos Açores, que eu saiba não havia Sinagoga, mas existem muitos cemitérios. Neste sentido, acredito que o impacto dos judeus nos Açores tenha sido muito maior do que em Cabo Verde. No entanto, há convergências entre estes dois territórios.

 

cemitério judaicoPor que motivo é relevante para si fazer este estudo?

CC – É muito relevante. Se virmos, Cabo Verde é um país católico, muito tolerante e que, ao longo dos anos, recebeu muitas pessoas de fora. Cabo Verde é, por definição, um povo mestiço e, até agora, não houve quem se tivesse debruçado sobre este assunto ou se interessado por restaurar os cemitérios que estavam em delapidação.

Quando me encontrei com alguns descendentes, por volta de 1996/97, e reparei no estado dos cemitérios, fiquei logo com vontade de fazer algo, porque entendo que se trata da história e da identidade multicultural de um povo. E como se trata de história, acabamos por aprender muito mais.

Depois de fazer algumas entrevistas em Cabo Verde com familiares destes judeus, fiquei a saber que naquela época estes mesmos judeus eram os pilares da economia do país e tiveram assim também um papel muito importante na cultura e na sociedade. Eles foram comerciantes importadores e exportadores.

Por tudo isto, creio que é necessário honrar a presença destas pessoas pelos lugares onde passaram e fizeram história.

Ainda assim tem sido um trabalho difícil. Criei uma Associação, nos Estados Unidos da América, sem fins lucrativos, para poder angariar fundos e, ao mesmo tempo, sem deixar a minha actividade profissional. Sou jornalista numa rádio: A Voz da América.

O facto de também ser judia, levou-me a arrancar com este projecto porque gosto muito de ver e descobrir a presença dos judeus por este mundo fora. Gosto de saber que os judeus foram bem recebidos em alguns países e que acabaram por ter impacto e por contribuir para a evolução de muitas sociedades.

No caso de Cabo Verde, acreditei que eu poderia ajudar, de forma a poder documentar melhor a história deste povo.

 

De que forma esta sua deslocação aos Açores a pode ajudar?

CC – Como os judeus tiveram uma influência muito maior nos Açores, cá há muitos mais vestígios da presença dos judeus. Fiquei a saber que só em São Miguel existiam 5 ou 6 Sinagogas e, pelo que sabemos nem uma em Cabo Verde. Tenho conhecimento de uma Vila em Cabo Verde que se chama Sinagoga que era onde pensamos que os judeus se reuniam para rezar, na ilha de Santo Antão.

Vir aos Açores é uma escola para mim. Serve de modelo para o que quero fazer. Vou para o museu hebraico e vejo como são feitas as descrições e como está montado e isso para mim é um exemplo a seguir. Acaba por ser uma grande orientação e aprendizagem que posso levar para os meus colegas em Cabo Verde. Aliás, vou mesmo tentar que alguns presidentes de Câmara de Cabo Verde possam vir cá para visitar e ver o exemplo de Ponta Delgada.

É que, para além da restauração dos cemitérios, da criação de um livro que creio que estará pronto no final deste ano, e de incluir Cabo Verde no roteiro do turismo judaico, também gostaríamos de ter um núcleo museológico. Como por cá, encontramos tudo isto, com objectos, livros religiosos, e muito mais, podíamos usar Ponta Delgada como um exemplo a seguir.

 

Tinha noção que a presença dos judeus nos Açores tinha tido todo este impacto?

CC – Eu sabia da presença judaica nos Açores, mas não sabia que tinha sido tão importante. Sempre ouvi falar dos Açores, sobretudo por causa da família Bensaude. Eu já suspeitava que havia algo para conhecer nos Açores, mas só estando cá e estudando é que constatei que realmente esta presença é muito maior do que eu pensava. Até ir ao museu, eu não podia imaginar o que existia cá.

Para mim foi uma grande aprendizagem, estou muito grata e tenho a certeza que será muito útil no trabalho que estou a desenvolver em Cabo Verde.

 

Porquê Cabo Verde?

CC - Porque é um país muito querido para mim. Já lá vou desde os anos 80, pelo facto de administrar um programa para bolsistas naquele país. Acabei por ser o elo de ligação de Cabo Verde nos Estados Unidos. Por outro lado, e sendo judia, sentia que tinha a capacidade e a obrigação de dar o meu contributo à minha comunidade. Acho que estou a dar uma boa lição a outras pessoas para que façam o mesmo que eu.