Artigos

Tiago Lopes, Ordem dos Enfermeiros: “Falta coragem política para criar um enfermeiro por cada família”

tiago lopesDIÁRIO DOS AÇORES - O Secretário Regional da Saúde, Luis Cabral, afirmou ontem no Telejornal que os núcleos familiares de saúde não avançam nos Açores devido a desentendimentos entre a Ordem dos Enfermeiros e a Ordem dos Médicos. O que é que divide os enfermeiros dos médicos nesta questão?

TIAGO LOPES - Antes de mais permita-me um breve enquadramento.

Os Açores foram pioneiros a nível nacional e internacional na implementação do Enfermeiro de Família. Para permitir uma maior proximidade e promover a saúde das famílias, não substituindo os médicos de família, o Enfermeiro de Família foi uma aposta, em 2010, do anterior Governo Regional, que revelou uma enorme coragem política e visão do papel dos enfermeiros no sistema de saúde.

Os Enfermeiros de Família do Centro de Saúde de Vila Franca do Campo têm feito um trabalho extraordinário alvo de interesse e reconhecimento de entidades nacionais e internacionais.

O próprio Governo Regional reconheceu a mais valia dos Enfermeiros de Família e decidiu, em 2012, dotar a USI do Faial e a USI de São Miguel destes profissionais, tendo inclusivé, o atual executivo governamental, mantido este objetivo no programa de governo sufragado.

Entretanto, surgiu o Plano de Reestruturação do SRS e a decisão tida em 2012 arrastou-se até 2015 com os agora chamados Núcleos de Saúde Familiar.

 Procurámos resolver, sem sucesso, alguns constrangimentos detectados, nomeadamente no que se refere aos sistemas de informação. Não só não vimos o problema resolvido como o vimos agravado: foi retirada a plataforma informática que suportava os registos dos Enfermeiros de Família e com eles evidência dos ganhos em saúde.

Agora somos informados pela tutela de que a Ordem dos Médicos não concorda com a inclusão dos Enfermeiros de Família nos referidos núcleos nos moldes em que foi e é reconhecido e valorizado o trabalho feito pelos Enfermeiros de Vila Franca do Campo. Para além de significativas mudanças na metodologia de trabalho, o cerne da questão parece estar uma imposição da Ordem dos Médicos no que diz respeito à coordenação da equipa, fazendo-se valer de um argumento falacioso, reportando-se a uma lei que só entre médicos diz respeito: o regime da carreira médica.

Ao passo que os Enfermeiros se debatem por poder trabalhar junto das famílias sem serem mais bem pagos por isso, os médicos debatem-se sobre quem manda em quem... eventualmente de olho posto em mais um acréscimo remuneratório pela “coordenação”...

No fundo, podíamos ter um Enfermeiro de Família para cada família Açoriana até ao final deste ano e não temos por falta de coragem política.

DA- Há poucos dias os enfermeiros denunciaram que continua a haver médicos que fazem os diagnósticos sem presença física, através de telefone. A Ordem dos Médicos ficou em esclarecer o assunto, mas até hoje. O problema está ultrapassado?

TIAGO LOPES - Infelizmente o problema persiste. Sobretudo nos turnos da tarde e da noite, perante situações em que um doente internado agrava o seu estado de saúde ou em situações de emergência, os enfermeiros continuam a contactar telefónicamente o médico, que se encontra a ser pago para estar de prevenção e dar assistência médica quando solicitado, e este continua a não comparecer no serviço para observar o doente dando indicações via telefónica, quando estas nem sequer estão minimamente protocoladas, colocando em causa a segurança e a qualidade dos cuidados prestados.

DA - Comemora-se hoje o Dia Mundial da Saúde. Na opinião da Ordem dos Enfermeiros dos Açores, como estamos de Saúde na Região? Melhor ou pior? 

TIAGO LOPES - Para fazer essa avaliação são necessários dados. Recordo que até ao verão passado estava em operacionalização o Inquérito Regional de Saúde. Contudo, nunca mais se ouviu falar do inquérito. Se há dados estes não foram divulgados e não são conhecidos tal como em muitas outras coisas.

DA - As listas de espera nos hospitais, sobretudo em Ponta Delgada, continuam a engrossar. Como se ultrapassa isto?

TIAGO LOPES - Com boa gestão dos blocos operatórios. O programa de gestão das listas de espera cirúrgicas é um bom ponto de partida mas é insuficiente. A Ordem dos Enfermeiros dos Açores já deu um contributo nesta matéria. Gratuito e que serve os interesses dos cidadãos. Não serve é o interesse de outros e talvez por isso não tenha tido nenhum governante ou político a assistir à sua apresentação.

PS/Açores quer que República se pronuncie sobre resposta ao pedido de ajuda

Berto-messiasO líder parlamentar do PS/Açores anunciou ontem  que o partido vai apresentar na Assembleia Legislativa uma proposta para que esta se pronuncie sobre a resposta do Governo da República ao pedido de ajuda face às intempéries.
“Esperamos que todos os partidos estejam ao lado do PS e do Governo”, disse Berto Messias, em declarações à agência Lusa, acrescentando que o objectivo é conseguir uma “pronúncia conjunta” sobre a posição do Governo da República.
Recorde-se que no passado dia 14 de Março, o mau tempo provocou três mortes e estragos nos Açores, sobretudo no Faial da Terra, , e no Porto Judeu, na ilha Terceira, calculados em 35 milhões de euros. Por esse motivo, o presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, enviou, na semana passada, uma carta ao primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, apelando à solidariedade nacional na recuperação dos estragos provocados pela intempérie. Por sua vez, o Conselho de Ministros autorizou, no entanto, apenas que os municípios afectados possam ultrapassar os seus limites de endividamento.
Berto Messias disse não perceber esta atitude, considerando a postura do Governo da República “absolutamente lamentável”.
“O Governo da República não pense que nos convence com artimanhas e truques, como a autorização de endividamento dos municípios”, frisou, acusando-o de olhar para os açorianos como “portugueses de segunda”.
O líder da bancada parlamentar do PS considera a posição do executivo “injusta” e lembra que quando a Madeira foi assolada por uma intempérie o tratamento foi diferente.
Berto Messias disse esperar que o Governo da República “repense” o pedido de ajuda da região, salientando que “90% das zonas afectadas são da competência do Governo” e não dos municípios.

Subcategorias