Obra literária do açoriano Rebelo de Bettencourt descrita agora em livro

Rebelo de BettencourtNascido no ano de 1894, em Ponta Delgada, foi no Diário dos Açores que Rebelo de Bettencourt deu início à sua carreira no mundo das letras. O poeta, ensaísta e jornalista foi contemporâneo de várias figuras portuguesas de renome, como Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Santa Rita Pintor, tendo sido precisamente por este facto que terá “caído no esquecimento”, segundo defende Anabela Mimoso, autora do primeiro livro que analisa a obra e pensamento do açoriano. O trabalho da investigadora vem dar a conhecer “o papel de relevo que Rebelo de Bettencourt teve nos meios literários do país durante mais de meio século”.

 

Rebelo de Bettencourt: raízes de basalto é como se intitula o livro escrito pela investigadora Anabela Mimoso que aborda a obra literária de um poeta, ensaísta e jornalista açoriano que viu o seu percurso literário começar no Diário dos Açores, no ano de 1912.
A ideia para o desenvolvimento do trabalho surgiu no âmbito de um colóquio da lusofonia, no qual Anabela Mimoso iria apresentar apenas um artigo sobre Rebelo de Bettencourt.
“A minha ambição era apenas esta: escrever o artigo para a conferência. Mas, durante a investigação que fiz, surgiram tantos elementos sobre o escritor e nenhum estudo de fundo sobre a sua obra, pelo que acabou por merecer uma maior atenção da minha parte”, explica a autora, ao Diário dos Açores.
Nascido em Agosto de 1894, Rebelo de Bettencourt, natural de Ponta Delgada, frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa e um colégio em Londres, mas não concluiu os estudos, optando por enveredar pelo mundo do jornalismo.
Foi contemporâneo de vários escritores de renome portugueses, pertencentes à “geração de Orpheu”, da qual fez parte Fernando Pessoa, tendo, inclusivamente, sido companheiro de Santa Rita Pintor e Almada Negreiros, bem como aluno de Teófilo Braga, a quem dedicou um dos seus trabalhos.
O escritor açoriano participou na corrente futurista em 1917, conjuntamente com outros poetas, mas cedo a abandonou para se converter ao movimento do nacionalismo. Veio a falecer em Setembro de 1969, na terra que o viu nascer.
Como jornalista, além do Diário dos Açores, Rebelo de Bettencourt colaborou com o Século, em 1917-18, e fundou, em Ponta Delgada, o jornal Districto. Foi ainda redactor do A Pátria, em Angra do Heroísmo, e, em Lisboa, colaborou na Gazeta dos Caminhos de Ferro e na revista de turismo Viagem. 
Sobre a obra de Rebelo Bettencourt, Anabela Mimoso avançou que esta “começou com poesia e com uma extensa colaboração em jornais e revistas, de onde resultou a publicação de vários ensaios”. Publicou ainda um livro de contos e uma “multiplicidade de crónicas e artigos em vários periódicos, nomeadamente, no Diário dos Açores, onde começou a sua carreira”.
“A influência do Diário dos Açores na obra de Rebelo de Bettencourt mostrou-se através do futurismo, em termos de conhecimento da corrente”, afirmou a investigadora, realçando o facto de o Diário estar, naquela altura, “bastante à frente do seu tempo, em termos literários”. Além disso, este jornal tornou também possível que o escritor açoriano se tornasse correspondente de uma publicação brasileira, que servia a comunidade portuguesa, e para o qual Rebelo de Bettencourt colaborava com artigos que “davam a conhecer os Açores”.
Entre poemas, contos, ensaios e peças jornalísticas, Bettencourt era conhecido como poeta, mas o facto de ter sido contemporâneo de outros poetas, “com maior peso”, fez com que não se destacasse tanto nesta área. Já no aspecto ensaístico, era qualificado como “brilhante” e “fantástico, com uma elegância e uma escrita muito clássicas”.
Dos seus tempos futuristas, publicou uma antologia de crónicas da revista Portugal Futurista intitulada O Mundo das Imagens, e três antologias poéticas, Cantigas (1923), Oceano Atlântico (1934) e Vozes do Mar e do Vento (1953), e alguns ensaios de mérito sobre Antero de Quental e Teófilo Braga. O seu primeiro livro, intitulado Ode a Camões, foi publicado pela Tipografia do Diário dos Açores. Entre as suas obras, Anabela Mimoso destacou O Mundo das Imagens, onde o açoriano “fala muito de Fernando Pessoa e da geração de Orpheu”.
A investigadora refere que a obra de Bettencourt “caiu no esquecimento”, pelo facto de outras “figuras de proa” terem sobressaído, naquela época.
“Fernando Pessoa sobrepõe-se a todos os poetas seus contemporâneos, sejam futuristas ou não”, afirmou, acrescentando, por outro lado, que o ensaio não é valorizado. “Valorizamos muito mais o romance e Bettencourt não escreveu romances”, explica.
Anabela Mimoso lembra que “se a escola não impõe como leitura obrigatória nenhuma obra de determinado autor, ele acabará esquecido”. “É a escola que canoniza estes escritores”, defende, justificando a falta de conhecimento que existe sobre o escritor açoriano.
A obra Rebelo de Bettencourt: raízes de basalto é publicada pela editora Seixo Publishers, criada pelo neto do escritor, Eduardo de Bettencourt Pinto, em Pitt Meaddows, no Canadá, e será apresentada amanhã, no Centro Municipal de Cultura, em Ponta Delgada, pelas 17 horas.
Anabela Mimoso, investigadora de literatura, já publicou vários artigos sobre escritores açorianos, nomeadamente, Rui Gonçalves, Antero de Quental, Teófilo Braga e Rodrigo Leal de Carvalho. “Estudei-os não por serem açorianos, mas por serem grandes autores”, frisa. Possui ainda uma vasta obra de ficção para crianças e adultos e diversos trabalhos publicados em revisas nacionais e internacionais.

Por: Alexandra Narciso

“Temos muitos talentos n os Açores que devem ser aproveitados”, diz Patrícia Carreiro

patricia carreiro 2Com apenas 26 anos, Patrícia Carreiro, natural de Ponta Delgada, é uma das mais promissoras escritoras dos Açores. Com duas obras editadas, a paixão desmedida pelos livros e pelo conhecimento faz desta jovem sonhadora, como se auto-intitula, uma das pessoas mais activas na divulgação da cultura e literatura açorianas. Licenciada em Comunicação Social, já foi jornalista na RDP e RTP Açores, Expresso das Nove e jornaldiário.com. Actualmente, coordena o projecto EscreVIVER (n)os Açores e é representante da Pastelaria Studios Editora nos Açores.

Quem é a Patrícia Carreiro?
A Patrícia Carreiro é uma pessoa totalmente apaixonada pelas letras. Considero-me uma pessoa simples, sincera, trabalhadora, sonhadora e, claro, feliz.

Em 2009 lançou o seu primeiro livro, o romance ‘A Distância que nos Uniu’, e em 2011, a ‘Amizade a branco e preto’, um livro infantil. Já tem mais alguma obra entre mãos?
Este ano, talvez em Junho ou Julho, sairá um novo livro meu. O mesmo será um romance, de nome ‘O fio perdido’, e terá a chancela da Pastelaria Studios Editora, da qual sou representante nos Açores.

Quando e como surgiu essa paixão pela escrita?
A paixão pela escrita surge muito mais cedo do que eu imagino. Já me diz, muitas vezes, a minha mãe que eu, antes de saber ler, estava sempre a pedir que ela me contasse histórias. Isso mostra que o bichinho sempre esteve lá, mesmo quando eu não percebia isso. Posteriormente, fui começando a ver os livros como verdadeiros amigos e, quando dei por mim, só pedia livros em todas as ocasiões festivas, o que me tornou, literalmente, dependente dos livros.

Foi essa paixão que a fez seguir a vida de jornalismo?
Não. Eu nunca sonhei ser jornalista. Até pelo contrário. O curso de Comunicação Social e Cultura, pela Universidade dos Açores, surge como uma forma de não sair de São Miguel para estudar. Foi um mero acaso. No entanto, foi este acaso que me despertou o gosto pelo jornalismo e também pela escrita de livros.

Como define a sua escrita?
A minha escrita é, a meu ver, muito simples e transparente. Transporta sempre uma mensagem para os meus leitores e tem (sempre) muito de mim. Revisito-me quando releio os meus livros.

O que é que a inspira?
A vida é uma inspiração para mim. Até um miúdo que beija a mãe no autocarro pode ser motivo de escrita e de inspiração para mim. Tento ir buscar a tudo o que me rodeia motivos para escrever: e resulta.

O seu trabalho literário é mais fruto de inspiração ou transpiração?
Julgo ter um pouco das duas coisas. A inspiração é muito necessária, mas a transpiração também: temos que fazer da escrita um trabalho organizado, metódico e de concentração para que tudo fique bem feito. Por isso, a transpiração também está muito presente na criação literária.

Qual é a principal dificuldade que sente quando escreve um livro?
Acho que o mais difícil, por vezes, é quando sabemos que rumo dar a história, mas não saber como o fazer. Por exemplo, sabemos que a personagem morre, mas ainda não sabemos como e andamos durante várias páginas a tentar descortinar que peripécia lhe havemos de dar. No entanto, quanto mais lermos e quanto mais escrevermos, é cada vez maior a nossa capacidade de ultrapassar estes entraves literários.

Nas suas obras há factos verídicos, personagens reais…?
Sim: quase sempre.

Qual tem sido o ‘feedback’ das pessoas ao seu trabalho?
Tenho recebido mensagens muito engraçadas e críticas muito construtivas ao meu trabalho. As pessoas dizem-me gostar do que escrevo, como escrevo e dos assuntos que escrevo. É, claro, uma grande satisfação para mim receber esse ‘feedback’.

Quais são os seus escritores preferidos?
Leio muitos autores variados, mas tenho alguns de eleição, claro. São eles: José Rodrigues dos Santos, Inês Pedrosa, Ken Follet, José Luís Peixoto, Miguel Sousa Tavares, Carlos Ruiz Zafon, Stieg Larsson, etc.

Tem algum livro preferido?
Há muitos livros que me marcam, por isso é muito complicado escolher apenas um. No entanto, há um que é uma marca na minha vida, sem dúvida. É ‘A sombra do vento’, de Carlos Ruiz Zafon.

Contou com algum tipo de apoio para a publicação dos seus livros?
Sim: tive apoios da DRJ, da Presidência do Governo, da Junta da Freguesia da Covoada, minha terra, e da Direcção Regional da Qualificação Profissional.

Além de escritora, é coordenadora do projecto EscreVIVER (n)os Açores. Fale-nos um pouco desse projecto...
O EscreVIVER (n)os Açores faz em Julho deste ano três primaveras. Este projecto surgiu, literalmente, por acaso. Andava eu à procura de cursos online de escrita criativa e esbarrei no site do Pedro Chagas Freitas, mentor do projecto no continente. Entretanto, começámos a organizar workshops de escrita por cá e tem corrido bem. Fazemos actividades para crianças, adolescentes, jovens, adultos, etc. Organizamos também apresentações de livros, apoiamos a edição e publicação de obras literárias e muito mais.
Toda a nossa actividade pode ser divulgada no blogue: www.escreviveracores.blogspot.com. 
Também é consultora literária. Há 10 anos atrás sonhava com o presente que está a vivenciar agora?
Actualmente, sou consultora literária e representante da Pastelaria Studios Editora, do Continente, nos Açores. Está a ser uma experiência muito boa.
Há dez anos, nem sei bem como me imaginava. Há dez anos, era uma miúda de quase 17 anos que ainda nem sabia bem que curso tirar. Era uma jovem que já gostava de ler, mas não tanto quanto hoje. Era uma rapariga agarrada à família, como ainda sou, e pouco rebelde. A rebeldia verdadeira veio mais tarde.
Há dez anos, respondendo à sua pergunta, nem imaginava escrever livros: muito menos publicá-los.
No entanto, tudo o que tem acontecido é uma surpresa mais do que agradável.

O hábito de ler é um estimulante para o conhecimento?
Muito. Acho que por lermos, temos uma visão da vida muito diferente, muito maior, muito mais preenchida. Ler faz-nos crescer: sem dúvida.

Como classifica o nível de escrita dos nossos açorianos? Escrevem bem ou cometem muitos erros gramaticais...?
Encontramos de tudo nas nossas ilhas, como –de resto–acontece em qualquer sítio. No entanto, tanto encontramos grandes talentos, como encontramos pessoas que não têm nenhum talento: de todo. Encontramos trabalhos literários sem gralhas nenhumas e outros repletos delas. Porém, e de uma forma geral, tenho encontrado mais trabalhos interessantes, bem estruturados e ricos do que propriamente aqueles que não chegam a sair da gaveta, porque não têm qualidade para que tal aconteça.

Como é ser escritora num mundo em crise?
É complicado. Não se pode viver disso, como é óbvio. Todavia, para mim, funciona como um escape muito bom e pacificador. É, como costumo dizer, a minha praia. 

O facto de sermos uma região pequena prejudicou ou, pelo contrário, facilitou a sua projecção na literatura?
Muitas vezes, os artistas açorianos sentem-se limitados por viverem nos Açores. A literatura não é excepção. Penso que continuamos com o estigma de que o que é bom é o que vem de fora. Além disso, o nosso trabalho é muitas vezes reconhecido fora das ilhas para depois ter o merecimento por cá. No entanto, acho que esta mentalidade começa a mudar: lentamente. O que me parece muito bem, pois temos muitos talentos (em muitas áreas) que devem ser melhor aproveitados.

Como ocupa os seus tempos livres?
Tenho sempre muita coisa para fazer. Quem me conhece sabe que tenho (algures) dentro de mim uma pilha que dura muito tempo. As minhas actividades de eleição são ler, claro, escrever, obviamente, ver séries, passear, estar com a família, sair com os amigos, ir ao cinema, etc.

Como olha para o futuro em termos profissionais e onde se imagina estar daqui a 10 anos e a fazer o quê?
O futuro em termos profissionais é, hoje em dia, extremamente complicado e instável. Tenho perfeita noção do que se passa no nosso país, mas –felizmente– não estou desempregada. Sou administrativa num escritório de advogados e agradeço todos os dias por isso, pois, tal como antes disse, não se pode viver da escrita.
No entanto, acredito que devemos viver um dia atrás do outro e ter sempre esperança e confiança de que tudo irá melhor. O primeiro passo para que corra tudo bem é, julgo, arranjar soluções e arregaçar as mangas para trabalhar, ao contrário de ficar a olhar para sabe-se lá onde, à espera que do céu caiam soluções.

Uma palavra fundamental na sua vida…
Fé.

“Praia-Outono Vivo 2011” acolhe livros da Ver Açores

Sidonio-bettencourt-livroDando continuidade à promoção e divulgação dos seus autores e respectivas obras e após os recentes lançamentos nos E.U.A. e Canadá, a Ver Açor, Editores apresenta duas das suas mais recentes obras, desta feita na Praia da Vitória, ilha Terceira.
A obra “JÁ NÃO VEM NINGUÉM”  de Sidónio Bettencourt  será apresentada no próximo dia 28 de Outubro de 2011, pelas 20h30 na Academia de Juventude e das Artes da Ilha Terceira, inserido no programa “Praia-Outono Vivo 2011”, com apresentação de Eduardo Ferraz da Costa. “JÁ NÃO VEM NINGUÉM” ; o título número 3 da colecção “Açores Cultural”, uma iniciativa da Ver Açor, Editores que procura promover e divulgar a literatura mais relevante produzida nos Açores; contará desta forma com nova apresentação no arquipélago dos Açores, após apresentação no passado dia 21 de Outubro no Centro Português de Mississauga, Canadá.
“Já Não Vem Ninguém”, de Sidónio Bettencourt e citando Daniel de Sá, autor do prefácio da presente obra “As vozes são as palavras que escreves, desenhando com elas gestos de amor no papel. Palavras que não são névoa nem véu. Palavras que desvelam, que desvendam. Palavras que falam. Já não vem ninguém?... Eu estou aqui. Eu vim, Sidónio. E muitos mais virão, atraídos por este suave rumorejar. E ficarão ouvindo, fascinados. Ouvindo sem cansaço, porque o prazer não cansa. Como soam belas as tuas palavras, meu amigo! Como soam belas! Quem tas pudesse roubar...”.
“Já Não Vem Ninguém”, de Sidónio Bettencourt, insere-se na “Colecção Açores Cultural”, uma iniciativa da Ver Açor, Editores, com a qual pretende fomentar os autores e escritores mais preponderantes da literatura açoriana, através da edição, reedição e promoção das suas obras.
Igualmente inserido no programa “Praia-Outono Vivo 2011” e na Academia de Juventude e das Artes da Ilha Terceira será apresentado o livro “Genuíno Madruga-O MUNDO QUE EU VI” da autoria de Genuíno Madruga, no próximo dia 29 de Outubro de 2011, pelas 21h30, estando a presentação da obra a cargo do Dr. Francisco Maduro Dias. Após o lançamento do livro no passado dia 20 de Maio de 2011 no Peter Café Sport, no Faial, seguiram-se outras oito apresentações, mais concretamente em São Miguel, Lisboa, E.U.A. e Canadá, todas elas de assinalável êxito e com grande adesão de público.
Nuno Sá, recentemente premiado no concurso internacional “Fotógrafo do Ano da Veolia Environnement Wildlife Photographer of the Year”, sendo esta a segunda vez que Nuno Sá é distinguido neste concurso, e um dos autores da Ver Açor, Editores estará também presente durante o programa “Praia-Outono Vivo 2011” e disponível para sessão de autógrafos e promoção de duas de várias obras da Ver Açor, Editores e de sua autoria, concretamente o “Guia de Mergulho dos Açores” e “Açores Whale Watching”.